Embarquei numa excursão de ônibus para as cidades históricas de Minas consciente de que estava embarcando também na terceira idade. Sempre gostei de viajar por conta própria. Em carros alugados e com um mapa na mão desbravei estradas desconhecidas por esse mundo afora. É verdade que me perdi algumas vezes e passei alguns sufocos, mas no fim das viagens esses contratempos se tornavam agradáveis recordações. Dessa vez foi diferente, por insistência de minha mulher, entramos numa excursão com tudo previamente organizado: hotéis, horários e itinerários.
Dentro do ônibus uma nuvem de cabelos brancos pairava por cima das poltronas. Me senti jovem no esplendor dos meus 60 anos. Depois da cerimônia de apresentações e de um lanchinho servido pelas solícitas guias seguimos quietos até a primeira parada — Quinze minutos para vocês esticarem as pernas e irem ao banheiro. Somente para o número um, deixem o número dois para o hotel. Aproveitem para trocar os fraldões geriátricos — ordenou uma delas com firmeza.
Obediente que sou, preparei-me para saltar do ônibus, mas não foi fácil. Um senhor com dificuldade para se locomover desceu apoiado numa bengala provocando enorme congestionamento atrás dele. Perdemos preciosos minutos e pensei em reivindicar uma prorrogação, mas desisti. Assim que consegui sair fui ao banheiro e mijei mesmo sem vontade para não ser tachado de rebelde; uma senhora já havia me chamado a atenção ao me ver sem crachá. De volta ao ônibus peguei um cigarro e levei-o à boca. Fui fuzilado por dezenas de olhares recriminadores, inclusive o da minha mulher. Em sinal de protesto decidi manter o cigarro apagado na boca.
Tumulto na chegada a Tiradentes, nosso primeiro pouso. Um ônibus com turistas franceses chegou junto com o nosso, provocando enorme confusão de malas e pessoas na portaria do hotel. Depois de muitas reclamações e bagagens trocadas saímos em grupo para conhecer a cidade. Ciceroneados por um guia local o cortejo seguiu a pé pelas pitorescas ruas e ladeiras de paralelepípedo. Um bando de tartarugas mancas teria ido mais rápido.
De volta ao hotel nossa guia sargentona informou a programação para a noite e dia seguinte — Hoje vocês têm noite livre para experimentarem a culinária mineira e fazerem comprinhas no comércio local. Amanhã alvorada às seis e meia. Malas na porta do quarto e todos no restaurante as sete em ponto para tomarmos o café da manhã — com os números um e dois já resolvidos, ela pensou, mas não disse.
Brilhante plano, não fosse também o dos franceses. O resultado foi novo tumulto internacional na manhã seguinte. Oitenta pessoas se digladiando ao redor da mesa do bufê por um pedaço de pão, um bolinho de fubá e uma xícara de café com leite. O pão de queijo nem chegava à mesa, o garçom era assaltado no caminho e voltava para a cozinha com a bandeja vazia. Com sacrifício consegui uma xícara de café e um pedaço de queijo de minas que surrupiei do prato de uma francesa distraída. Atrasados e mal alimentados seguimos em frente.
O resto da viagem foi uma sucessão de entra e sai de ônibus e igrejas, alvoradas com o galo cantando, malas na porta com hora marcada e caminhadas a passo de cágado. Num dos hotéis uma senhora afobada despachou a mala antes de tirar a roupa que ia vestir. Passou o dia de roupão até chegarmos no hotel seguinte. E tome de comida mineira e compras de lembrançinhas inúteis. Levei mais dois cartões amarelos da fiscal de crachá. Houve troca de remédios e receitas culinárias. Ouvi relatos detalhados de cirurgias, com direito a exibição de cicatrizes. Tirei muitas fotos com o grupo na porta de igrejas e vi dezenas de retratos de filhos, netos e bisnetos. Na viagem de volta tivemos jogos, sorteio de brindes, amigo oculto e karaokê a bordo. Fomos obrigados a fazer duas paradas não programadas por conta dos abusos da culinária mineira. A guia anunciou que breve haverá nova excursão, provavelmente com o mesmo roteiro. Graças ao Alzheimer em uma semana todos já terão esquecido o que viram. Solicitado a preencher nome, endereço e telefone numa lista, informei tudo errado.
Sorria, você está na Barra! Nunca fiquei tão contente em voltar para casa. Prometendo participar em outras excursões do grupo me despedi e desembarquei do ônibus e da terceira idade.
quinta-feira, 7 de junho de 2007
Santo de casa também faz milagre
— Ô garçom, traz mais uma rodada de chope pra gente fazer um brinde ao primeiro santo brasileiro.
— Santo brasileiro? Isso não existe! É folclore igual ao saci pererê e a mula-sem-cabeça.
— Não existia, meu caro, mas agora existe. O papa acabou de canonizar Frei Galvão, o nosso santo tupiniquim. Habemus santum! Entramos no primeiro mundo.
— Você quer dizer que um papa nazista canonizou um santo brasileiro? Esse mundo está mesmo perdido. O que foi que esse Frei Galvão fez pra virar santo?
— Milagres. Para uma pessoa virar santo tem que fazer milagres.
— E qual foi o milagre que ele fez? Foi ele que salvou o Flamengo de ser rebaixado no brasileirão de 2005?
— Não, ele inventou as pílulas milagrosas.
— Ah bom! Se ele inventou o viagra, merece ser santo.
— Que viagra que nada. Ele inventou umas pílulas recheadas com jaculatórias.
— Jaculatórias! Argh! Que nojo!
— Quanta ignorância, quanta falta de cultura! Não é nada disso que você está pensando; jaculatórias são orações curtas. As pílulas têm um papelzinho dentro com as orações do frei e curam os doentes.
— Curam mesmo ou isso é mais uma armação da igreja? Eu não confio nesses padrecos. Outro dia mesmo teve um que roubou umas gravatas lá nos Estados Unidos e foi em cana.
— Não era padre, era rabino. Mas isso não tem nada que ver com Frei Galvão. Os milagres deles foram estudados por especialistas e comprovados cientificamente.
— Eu queria ver ele fazer um milagre e meter na cadeia esses juízes e políticos corruptos.
— Aí já é pedir demais. Essa nem Jesus Cristo consegue.
— E como é que a gente faz pra arranjar uns milagres com esse santo?
— É só você tomar as pílulas dele.
— Aquelas com jaculatórias? Tô fora, prefiro ficar sem os milagres.
— Larga de ser burro, ô cara, eu já disse que jaculatórias são orações.
— Com tantos Valérios, Delubios, Malufes e Euricos a solta por aí, estava mesmo na hora de aparecerem uns santos pra contrabalançar.
— Frei Galvão foi o primeiro, tem outros na fila.
— O Lula é um candidato. Mesmo com toda aquela roubalheira e escândalos em Brasília ele foi reeleito com mais de 50 milhões de votos. Vai dizer que não foi milagre?
— Pode ser. Só que o Lula não quer ser santo. Ele já se acha Deus.
—Tim! Tim! Viva São Frei Galvão!
— Santo brasileiro? Isso não existe! É folclore igual ao saci pererê e a mula-sem-cabeça.
— Não existia, meu caro, mas agora existe. O papa acabou de canonizar Frei Galvão, o nosso santo tupiniquim. Habemus santum! Entramos no primeiro mundo.
— Você quer dizer que um papa nazista canonizou um santo brasileiro? Esse mundo está mesmo perdido. O que foi que esse Frei Galvão fez pra virar santo?
— Milagres. Para uma pessoa virar santo tem que fazer milagres.
— E qual foi o milagre que ele fez? Foi ele que salvou o Flamengo de ser rebaixado no brasileirão de 2005?
— Não, ele inventou as pílulas milagrosas.
— Ah bom! Se ele inventou o viagra, merece ser santo.
— Que viagra que nada. Ele inventou umas pílulas recheadas com jaculatórias.
— Jaculatórias! Argh! Que nojo!
— Quanta ignorância, quanta falta de cultura! Não é nada disso que você está pensando; jaculatórias são orações curtas. As pílulas têm um papelzinho dentro com as orações do frei e curam os doentes.
— Curam mesmo ou isso é mais uma armação da igreja? Eu não confio nesses padrecos. Outro dia mesmo teve um que roubou umas gravatas lá nos Estados Unidos e foi em cana.
— Não era padre, era rabino. Mas isso não tem nada que ver com Frei Galvão. Os milagres deles foram estudados por especialistas e comprovados cientificamente.
— Eu queria ver ele fazer um milagre e meter na cadeia esses juízes e políticos corruptos.
— Aí já é pedir demais. Essa nem Jesus Cristo consegue.
— E como é que a gente faz pra arranjar uns milagres com esse santo?
— É só você tomar as pílulas dele.
— Aquelas com jaculatórias? Tô fora, prefiro ficar sem os milagres.
— Larga de ser burro, ô cara, eu já disse que jaculatórias são orações.
— Com tantos Valérios, Delubios, Malufes e Euricos a solta por aí, estava mesmo na hora de aparecerem uns santos pra contrabalançar.
— Frei Galvão foi o primeiro, tem outros na fila.
— O Lula é um candidato. Mesmo com toda aquela roubalheira e escândalos em Brasília ele foi reeleito com mais de 50 milhões de votos. Vai dizer que não foi milagre?
— Pode ser. Só que o Lula não quer ser santo. Ele já se acha Deus.
—Tim! Tim! Viva São Frei Galvão!
Dura lex sed lex
Como dever de casa a professora mandou seus alunos lerem as principais notícias do jornal e prepararem dúvidas e comentários. Eles precisam saber o que se passa no país e no mundo. Na aula seguinte as perguntas pipocavam de todos os lados como balas perdidas.
— Professora, não é a polícia que tem que perseguir os bandidos?
— É. Por que você está perguntando isso?
— Porque o jornal diz que os bandidos é que estão perseguindo a polícia.
É a nossa triste realidade, mas não posso admitir isso para os alunos. Nós educadores temos o dever de manter a fé dos jovens nas instituições.
— Deve ter sido um truque da polícia pra armar uma cilada e prender os bandidos.
— Professora, se o jogo do bicho é proibido, por que a polícia não prende aquele homem que fica lá em frente à padaria? Ele fica sentado numa cadeira na calçada recebendo apostas no jogo do bicho.
— Vai ver que a polícia não sabe o que ele está fazendo.
Será que ele vai engolir essa?
— Se não sabe é muito otária, todo mundo sabe que ali é o ponto do bicho. A minha empregada vai todo dia lá fazer uma fezinha com ele.
Não engoliu.
— É uma questão social, ele não tem emprego e com o jogo do bicho ele ganha um dinheirinho pra levar pra casa.
— Professora, por que os juízes receberam dinheiro dos bicheiros?
— Foram só alguns juízes corruptos, mas eles já foram presos.
— Eles foram presos, mas logo depois foram soltos.
Alguém já disse que o Brasil não é um país sério.
— Eles vão ser julgados e se forem condenados vão ser presos de novo.
— Mas se eles forem julgados por outros juízes eles não vão ser condenados.
— Vão sim, a justiça vai ser feita.
Assim espero!
— Professora, por que os juízes foram soltos e os bicheiros ficaram presos?
— Os juízes foram soltos por que têm privilégios. Eles vão esperar o julgamento em liberdade.
— Por que eles têm privilégios e os bicheiros não? A senhora não explicou que a lei é igual pra todo mundo?
Esses garotos não são fáceis, estão me deixando na maior saia justa.
— Porque existe uma lei que diz que as pessoas que estudam e têm curso superior têm privilégios. É para incentivar as pessoas a estudarem.
— Quer dizer que tem uma lei pra quem estudou e é rico e outra pra quem é analfabeto e pobre?
A minha vontade é dizer que é isso mesmo, mas não posso.
— Nada disso. As leis são as mesmas para todos, mas têm particularidades.
— Professora, quem é que faz as leis? São os juízes?
— Não, os juízes julgam as pessoas baseados nas leis que são feitas pelos políticos do poder Legislativo. As leis são feitas para defender os interesses do povo.
— Mas os políticos não são corruptos? Não foram eles que receberam dinheiro do mensalão.
Quem mandou ser professora?E ainda mais pra ganhar uma merreca.
— Nem todo político é corrupto. Os que receberam dinheiro do mensalão foram cassados e estão respondendo processos criminais.
— Nem todos, professora, muitos foram absolvidos e saíram rindo. Teve uma deputada que até dançou de alegria. Eu vi na televisão.
Está cada vez mais difícil preservar a honra das nossas instituições. Ainda bem que falta pouco tempo para eu me aposentar.
— Professora, não é a polícia que tem que perseguir os bandidos?
— É. Por que você está perguntando isso?
— Porque o jornal diz que os bandidos é que estão perseguindo a polícia.
É a nossa triste realidade, mas não posso admitir isso para os alunos. Nós educadores temos o dever de manter a fé dos jovens nas instituições.
— Deve ter sido um truque da polícia pra armar uma cilada e prender os bandidos.
— Professora, se o jogo do bicho é proibido, por que a polícia não prende aquele homem que fica lá em frente à padaria? Ele fica sentado numa cadeira na calçada recebendo apostas no jogo do bicho.
— Vai ver que a polícia não sabe o que ele está fazendo.
Será que ele vai engolir essa?
— Se não sabe é muito otária, todo mundo sabe que ali é o ponto do bicho. A minha empregada vai todo dia lá fazer uma fezinha com ele.
Não engoliu.
— É uma questão social, ele não tem emprego e com o jogo do bicho ele ganha um dinheirinho pra levar pra casa.
— Professora, por que os juízes receberam dinheiro dos bicheiros?
— Foram só alguns juízes corruptos, mas eles já foram presos.
— Eles foram presos, mas logo depois foram soltos.
Alguém já disse que o Brasil não é um país sério.
— Eles vão ser julgados e se forem condenados vão ser presos de novo.
— Mas se eles forem julgados por outros juízes eles não vão ser condenados.
— Vão sim, a justiça vai ser feita.
Assim espero!
— Professora, por que os juízes foram soltos e os bicheiros ficaram presos?
— Os juízes foram soltos por que têm privilégios. Eles vão esperar o julgamento em liberdade.
— Por que eles têm privilégios e os bicheiros não? A senhora não explicou que a lei é igual pra todo mundo?
Esses garotos não são fáceis, estão me deixando na maior saia justa.
— Porque existe uma lei que diz que as pessoas que estudam e têm curso superior têm privilégios. É para incentivar as pessoas a estudarem.
— Quer dizer que tem uma lei pra quem estudou e é rico e outra pra quem é analfabeto e pobre?
A minha vontade é dizer que é isso mesmo, mas não posso.
— Nada disso. As leis são as mesmas para todos, mas têm particularidades.
— Professora, quem é que faz as leis? São os juízes?
— Não, os juízes julgam as pessoas baseados nas leis que são feitas pelos políticos do poder Legislativo. As leis são feitas para defender os interesses do povo.
— Mas os políticos não são corruptos? Não foram eles que receberam dinheiro do mensalão.
Quem mandou ser professora?E ainda mais pra ganhar uma merreca.
— Nem todo político é corrupto. Os que receberam dinheiro do mensalão foram cassados e estão respondendo processos criminais.
— Nem todos, professora, muitos foram absolvidos e saíram rindo. Teve uma deputada que até dançou de alegria. Eu vi na televisão.
Está cada vez mais difícil preservar a honra das nossas instituições. Ainda bem que falta pouco tempo para eu me aposentar.
terça-feira, 1 de maio de 2007
De alquimista a cronista
Nascido e criado num Rio de Janeiro que não existe mais. A infância e a adolescência passou entre a educação num colégio jesuíta e o lazer com colegas. Peladeiro convicto atuou tanto nas areias da praia como nas ruas e campos de futebol soçaite. Se talento lhe faltava, disposição tinha de sobra. Sofreu e sorriu com o seu Flamengo e assistiu ao milésimo gol do Pelé no Maracanã. Influenciado pelo pai, um pioneiro em caça submarina no Brasil, tomou gosto pelo mundo submarino. Não foi surfista, na sua época só se pegava jacaré. Andou de bonde e lotação até ter seu primeiro carro. Namorou e dançou ao som dos acordes da bossa nova e das guitarras dos Beatles. Casou-se com uma legítima garota de Ipanema, casamento que perdura até hoje e que gerou três lindas filhas.
Na hora de escolher uma profissão se aventurou pelos mistérios da alquimia. Seu primeiro emprego foi numa fábrica onde ficou muitos anos. Aos 40 deu uma guinada na carreira, trocou a área industrial pela comercial. Viajou por esse Brasil e pelo mundo afora, ampliou seus horizontes. Participou de reuniões, congressos ou simplesmente viajou de férias. Conheceu muitos lugares, fez novas amizades e colecionou momentos que se transformaram em doces recordações.
Em determinado momento as viagens de trabalho, a princípio prazerosas, se tornaram enfadonhas. Passava longas e solitárias horas em hotéis, aeroportos e aviões. Precisava arranjar algo para se distrair e não se tornar mais um alcoólatra em trânsito, como tantos que conheceu em suas andanças pelo mundo. Descobriu que escrever passava o tempo e encontrou a distração que procurava.
No início foram memórias, transferia para o papel momentos de sua existência. Numa segunda etapa vieram as crônicas, comentava e dava opinião sobre notícias da época. Resolveu ir além e, baseado num fato real e na sua imaginação, escreveu um conto. Foi o primeiro de muitos perpetuados mais tarde em livros. Tomou gosto pela arte de escrever e se viciou. Para se aperfeiçoar voltou a ler seus autores prediletos e freqüentou cursos e oficinas literárias onde aprendeu e fez preciosas amizades.
Sessentão e aposentado dedica-se aos netos, que para sua alegria não param de chegar a esse mundo. Pode ser encontrado pela manhã pedalando na ciclovia da Barra e à noite em mesas de pôquer e sinuca. Nas horas vagas entrega-se ao vício de escrever.
Na hora de escolher uma profissão se aventurou pelos mistérios da alquimia. Seu primeiro emprego foi numa fábrica onde ficou muitos anos. Aos 40 deu uma guinada na carreira, trocou a área industrial pela comercial. Viajou por esse Brasil e pelo mundo afora, ampliou seus horizontes. Participou de reuniões, congressos ou simplesmente viajou de férias. Conheceu muitos lugares, fez novas amizades e colecionou momentos que se transformaram em doces recordações.
Em determinado momento as viagens de trabalho, a princípio prazerosas, se tornaram enfadonhas. Passava longas e solitárias horas em hotéis, aeroportos e aviões. Precisava arranjar algo para se distrair e não se tornar mais um alcoólatra em trânsito, como tantos que conheceu em suas andanças pelo mundo. Descobriu que escrever passava o tempo e encontrou a distração que procurava.
No início foram memórias, transferia para o papel momentos de sua existência. Numa segunda etapa vieram as crônicas, comentava e dava opinião sobre notícias da época. Resolveu ir além e, baseado num fato real e na sua imaginação, escreveu um conto. Foi o primeiro de muitos perpetuados mais tarde em livros. Tomou gosto pela arte de escrever e se viciou. Para se aperfeiçoar voltou a ler seus autores prediletos e freqüentou cursos e oficinas literárias onde aprendeu e fez preciosas amizades.
Sessentão e aposentado dedica-se aos netos, que para sua alegria não param de chegar a esse mundo. Pode ser encontrado pela manhã pedalando na ciclovia da Barra e à noite em mesas de pôquer e sinuca. Nas horas vagas entrega-se ao vício de escrever.
Viagem pelo mundo lexical
Li no jornal que um número expressivo de brasileiros sabe ler, mas não sabe interpretar o que lê. Entendem o significado de algumas palavras e frases curtas, mas não de um texto um pouco mais longo e complexo. São semi-analfabetos. Fechei o jornal e os olhos e embarquei numa viagem pelo mundo lexical.
A primeira idéia que me ocorreu foi que uma palavra isolada perde sua força. É como um soldado no campo de batalha que precisa do apoio de seus companheiros para lutar e sobreviver. Cada palavra-soldado tem sua função específica na tropa lingüística, seja substantivo, adjetivo, verbo, pronome ou outra especialidade. Elas se completam e formam frases, que alinhadas compõe parágrafos que dão vida ao texto.
Uma língua seria então um repertório destas palavras e cada idioma teria o seu. Sob esse aspecto traduzir seria uma tarefa fácil, bastaria substituir palavras de um idioma para o outro e montar frases. É o que fazem os programas de tradução instantânea com resultados desastrosos. Traduzir é mais do que substituir palavras, é transformar, adaptar, improvisar. Traduttore, traditore, diz o ditado italiano. Traduzir é trair no sentido que o texto traduzido é infiel ao original.
Todo língua possui suas características, peculiaridades e ambigüidades. Em português dizemos que vamos botar a calça e calçar a bota, quando mais lógico seria calçarmos a calça e botarmos a bota. Em idiomas diferentes as palavras nem sempre significam o que aparentam. Num país de língua inglesa ao se deparar com uma placa de PUSH numa porta, não puxe, empurre; se for PULL, não pule, puxe, e no caso de EXIT, não hesite, saia. A palavra saia, que acabei de usar é outro exemplo, isolada e fora do contexto não se sabe se é a peça do vestuário feminino ou o tempo verbal.
A informática, o economês, a internet e outras áreas tecnológicas estão sempre lançando palavras novas na mídia. Software, marketing e performance são exemplos de algumas já aceitas e incorporadas ao nosso vernáculo. Outras, como deletar, estresse, know how e impeachment, ainda estão sendo digeridas. Difíceis de engolir são as aportuguesadas fidebeque, leiaute e estartar. É a globalização introduzindo uma nova língua universal para facilitar a comunicação entre os povos, o que o esperanto tentou, mas não conseguiu.
Nesse ponto da viagem compreendi melhor as dificuldades dos semi-analfabetos tendo que conviver com todos esses neologismos e percalços lingüísticos. Abri os olhos e retomei a leitura do jornal.
A primeira idéia que me ocorreu foi que uma palavra isolada perde sua força. É como um soldado no campo de batalha que precisa do apoio de seus companheiros para lutar e sobreviver. Cada palavra-soldado tem sua função específica na tropa lingüística, seja substantivo, adjetivo, verbo, pronome ou outra especialidade. Elas se completam e formam frases, que alinhadas compõe parágrafos que dão vida ao texto.
Uma língua seria então um repertório destas palavras e cada idioma teria o seu. Sob esse aspecto traduzir seria uma tarefa fácil, bastaria substituir palavras de um idioma para o outro e montar frases. É o que fazem os programas de tradução instantânea com resultados desastrosos. Traduzir é mais do que substituir palavras, é transformar, adaptar, improvisar. Traduttore, traditore, diz o ditado italiano. Traduzir é trair no sentido que o texto traduzido é infiel ao original.
Todo língua possui suas características, peculiaridades e ambigüidades. Em português dizemos que vamos botar a calça e calçar a bota, quando mais lógico seria calçarmos a calça e botarmos a bota. Em idiomas diferentes as palavras nem sempre significam o que aparentam. Num país de língua inglesa ao se deparar com uma placa de PUSH numa porta, não puxe, empurre; se for PULL, não pule, puxe, e no caso de EXIT, não hesite, saia. A palavra saia, que acabei de usar é outro exemplo, isolada e fora do contexto não se sabe se é a peça do vestuário feminino ou o tempo verbal.
A informática, o economês, a internet e outras áreas tecnológicas estão sempre lançando palavras novas na mídia. Software, marketing e performance são exemplos de algumas já aceitas e incorporadas ao nosso vernáculo. Outras, como deletar, estresse, know how e impeachment, ainda estão sendo digeridas. Difíceis de engolir são as aportuguesadas fidebeque, leiaute e estartar. É a globalização introduzindo uma nova língua universal para facilitar a comunicação entre os povos, o que o esperanto tentou, mas não conseguiu.
Nesse ponto da viagem compreendi melhor as dificuldades dos semi-analfabetos tendo que conviver com todos esses neologismos e percalços lingüísticos. Abri os olhos e retomei a leitura do jornal.
O que é de gosto regala a vida
Alfredo passou mal no escritório chegando a desmaiar. Chamada às pressas para atendê-lo, sua filha única, médica, já o encontrou bem disposto e trabalhando normalmente — Foi uma bobagem, um mal estar passageiro — disse ele enquanto ela tirava sua pressão.
No dia seguinte ela o levou, sob protestos, para fazer um check-up no hospital em que trabalhava. Os resultados dos exames não acusaram nada de anormal — É excesso de trabalho, papai. Você precisa se distrair mais, relaxar, curtir a vida. Há quanto tempo você não tira umas férias?
Alfredo não respondeu, não teve coragem. As últimas férias haviam sido quando a levou para a Disney no seu aniversário de dez anos. Sabia que a filha tinha razão, ele se sentia mesmo estafado, mas relutava em se afastar do trabalho.
Na saída do hospital avistaram um outdoor de uma agência de turismo com a frase - Não leve tão a sério a sua existência. Você não vai sair dela com vida.
— Papai, essa frase foi feita sob medida pra você que vai acabar se matando de tanto trabalhar. Vai passar pela vida sem viver. Por que você e a mamãe não viajam para a Europa numa excursão? Aposto que vocês iriam adorar.
A frase e os argumentos da filha foram decisivos para ele tomar a decisão — Tudo bem, minha filha, eu tiro umas férias, mas nem pensar em Europa e viajar de avião. Eu vou é para São Lourenço e de carro.
— São Lourenço! Que falta de imaginação! Mas pensando bem é até melhor. Lá pelo menos você vai descansar e se alimentar bem.
No domingo Alfredo e a mulher seguiram para uma semana de férias em São Lourenço. Hospedaram-se no Hotel Brasil, o mesmo da lua de mel há trinta anos. O tempo havia passado e o hotel se modernizado, mas o programa era o mesmo. Manhã no parque das águas sulfurosas e magnesianas, foto no caramanchão do lago, miolo de pão para pombos e patos, pedalinho, charrete e um bom livro para ler.
Almoço seguido de cochilo na espreguiçadeira. À tardinha passeio a pé pelo comércio para comprar lembranças e bugigangas. Uma partida de biriba antes do jantar e depois cafezinho e chá na varanda. Os homens discutem política e futebol enquanto as mulheres assistem à novela na sala de televisão. Pouca coisa mudou dos tempos da lua de mel, só os momentos embaixo dos lençóis que não eram mais os mesmos.
O primeiro dia foi interessante, o segundo entediante e o terceiro angustiante. Alfredo sentia-se um inútil longe de seus relatórios, planilhas e contratos. A sensação era de um viciado tentando largar a droga. Pensou em ligar para o escritório e saber das novidades, mas conteve-se, estava ali para curtir as férias como havia prometido para a filha. Passou o resto da semana amargurado esperando pelo domingo.
Na segunda-feira voltou ansioso ao escritório. Deu um bom dia seco para os colegas, trancou-se na sala e mergulhou de cabeça na papelada. Não parou nem para almoçar. Como sempre foi o último a sair levando na pasta um relatório para terminar em casa. Precisava recuperar a semana perdida. Férias, nunca mais.
No dia seguinte ela o levou, sob protestos, para fazer um check-up no hospital em que trabalhava. Os resultados dos exames não acusaram nada de anormal — É excesso de trabalho, papai. Você precisa se distrair mais, relaxar, curtir a vida. Há quanto tempo você não tira umas férias?
Alfredo não respondeu, não teve coragem. As últimas férias haviam sido quando a levou para a Disney no seu aniversário de dez anos. Sabia que a filha tinha razão, ele se sentia mesmo estafado, mas relutava em se afastar do trabalho.
Na saída do hospital avistaram um outdoor de uma agência de turismo com a frase - Não leve tão a sério a sua existência. Você não vai sair dela com vida.
— Papai, essa frase foi feita sob medida pra você que vai acabar se matando de tanto trabalhar. Vai passar pela vida sem viver. Por que você e a mamãe não viajam para a Europa numa excursão? Aposto que vocês iriam adorar.
A frase e os argumentos da filha foram decisivos para ele tomar a decisão — Tudo bem, minha filha, eu tiro umas férias, mas nem pensar em Europa e viajar de avião. Eu vou é para São Lourenço e de carro.
— São Lourenço! Que falta de imaginação! Mas pensando bem é até melhor. Lá pelo menos você vai descansar e se alimentar bem.
No domingo Alfredo e a mulher seguiram para uma semana de férias em São Lourenço. Hospedaram-se no Hotel Brasil, o mesmo da lua de mel há trinta anos. O tempo havia passado e o hotel se modernizado, mas o programa era o mesmo. Manhã no parque das águas sulfurosas e magnesianas, foto no caramanchão do lago, miolo de pão para pombos e patos, pedalinho, charrete e um bom livro para ler.
Almoço seguido de cochilo na espreguiçadeira. À tardinha passeio a pé pelo comércio para comprar lembranças e bugigangas. Uma partida de biriba antes do jantar e depois cafezinho e chá na varanda. Os homens discutem política e futebol enquanto as mulheres assistem à novela na sala de televisão. Pouca coisa mudou dos tempos da lua de mel, só os momentos embaixo dos lençóis que não eram mais os mesmos.
O primeiro dia foi interessante, o segundo entediante e o terceiro angustiante. Alfredo sentia-se um inútil longe de seus relatórios, planilhas e contratos. A sensação era de um viciado tentando largar a droga. Pensou em ligar para o escritório e saber das novidades, mas conteve-se, estava ali para curtir as férias como havia prometido para a filha. Passou o resto da semana amargurado esperando pelo domingo.
Na segunda-feira voltou ansioso ao escritório. Deu um bom dia seco para os colegas, trancou-se na sala e mergulhou de cabeça na papelada. Não parou nem para almoçar. Como sempre foi o último a sair levando na pasta um relatório para terminar em casa. Precisava recuperar a semana perdida. Férias, nunca mais.
Vamos dar um tempo
O namoro começou na adolescência num cursinho de inglês. Naquele tempo não se ficava como nos dias de hoje e para dar uns amassos era preciso namorar. O relacionamento se firmou e prosseguiu durante o tempo de faculdade, ela de medicina e ele de engenharia. Brigas existiram, seguidas de reconciliações que fortaleceram a relação e acabaram por levá-los ao altar. Igreja lotada, recepção suntuosa, lua de mel na Europa e notas em colunas sociais.
Namoro longo, casamento curto. A repentina separação foi uma surpresa para quem os conhecia, na teoria eles formavam o casal perfeito, mas na prática não era bem assim. As desavenças começaram tão logo a poeira das bodas abaixou e a rotina do casamento se instalou. Incompatibilidade de horários; ela saía de um plantão para outro e ele sempre envolvido em viagens de trabalho. Quase nunca se encontravam e quando acontecia tinham objetivos diferentes, ele queria sair para se divertir e ela ficar em casa para colocar o sono em dia. Ele acabava saindo sozinho e a relação foi se deteriorando. Suspeitas, nunca confirmadas, de outra no pedaço.
Resolveram dar um tempo e cada um seguiu seu caminho sem guardar rancores. Ela voltou a se casar e teve dois filhos com um colega de profissão de quem se separou mais tarde. Ele continuou com suas viagens, morou em várias cidades e seus relacionamentos sempre foram passageiros. No início ainda se falavam e trocavam cartões nos aniversários e datas festivas, mas depois nem isso, com o passar do tempo perderam totalmente o contato.
O reencontro foi casual numa festa de casamento da filha de um amigo comum. Emocionados e desacompanhados aproveitaram a oportunidade que o destino lhes reservou. Beberam, comeram, dançaram, riram e conversaram sobre suas vidas depois da separação. Assunto é o que não faltava, tinham trinta anos de histórias para contar. Embalados pela emoção do reencontro e pelas muitas taças de prosecco que tomaram, decidiram terminar a noite no apartamento dele. A brasa da antiga paixão adolescente estava reacesa.
Entraram no apartamento tirando as roupas entre beijos e abraços acalorados. Cada peça que caía no chão revelava uma parte do corpo e trazia doces recordações, jogando mais lenha na fogueira da paixão. Enfim nus, melhor dizendo, novamente nus. O tempo havia sido cruel e deixado marcas na dupla cinqüentona: celulites, varizes, barrigas e carnes flácidas. Detalhes insignificantes e incapazes de apagar o fogaréu que os consumia naquele momento.
A noite foi curta para apaziguar toda aquela paixão e os encontros se repetiram. Eles tinham um passado para resgatar, um presente para aproveitar e, quem sabe, um futuro para compartilhar.
Namoro longo, casamento curto. A repentina separação foi uma surpresa para quem os conhecia, na teoria eles formavam o casal perfeito, mas na prática não era bem assim. As desavenças começaram tão logo a poeira das bodas abaixou e a rotina do casamento se instalou. Incompatibilidade de horários; ela saía de um plantão para outro e ele sempre envolvido em viagens de trabalho. Quase nunca se encontravam e quando acontecia tinham objetivos diferentes, ele queria sair para se divertir e ela ficar em casa para colocar o sono em dia. Ele acabava saindo sozinho e a relação foi se deteriorando. Suspeitas, nunca confirmadas, de outra no pedaço.
Resolveram dar um tempo e cada um seguiu seu caminho sem guardar rancores. Ela voltou a se casar e teve dois filhos com um colega de profissão de quem se separou mais tarde. Ele continuou com suas viagens, morou em várias cidades e seus relacionamentos sempre foram passageiros. No início ainda se falavam e trocavam cartões nos aniversários e datas festivas, mas depois nem isso, com o passar do tempo perderam totalmente o contato.
O reencontro foi casual numa festa de casamento da filha de um amigo comum. Emocionados e desacompanhados aproveitaram a oportunidade que o destino lhes reservou. Beberam, comeram, dançaram, riram e conversaram sobre suas vidas depois da separação. Assunto é o que não faltava, tinham trinta anos de histórias para contar. Embalados pela emoção do reencontro e pelas muitas taças de prosecco que tomaram, decidiram terminar a noite no apartamento dele. A brasa da antiga paixão adolescente estava reacesa.
Entraram no apartamento tirando as roupas entre beijos e abraços acalorados. Cada peça que caía no chão revelava uma parte do corpo e trazia doces recordações, jogando mais lenha na fogueira da paixão. Enfim nus, melhor dizendo, novamente nus. O tempo havia sido cruel e deixado marcas na dupla cinqüentona: celulites, varizes, barrigas e carnes flácidas. Detalhes insignificantes e incapazes de apagar o fogaréu que os consumia naquele momento.
A noite foi curta para apaziguar toda aquela paixão e os encontros se repetiram. Eles tinham um passado para resgatar, um presente para aproveitar e, quem sabe, um futuro para compartilhar.
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