Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Dura lex sed lex

Como dever de casa a professora mandou seus alunos lerem as principais notícias do jornal e prepararem dúvidas e comentários. Eles precisam saber o que se passa no país e no mundo. Na aula seguinte as perguntas pipocavam de todos os lados como balas perdidas.
— Professora, não é a polícia que tem que perseguir os bandidos?
— É. Por que você está perguntando isso?
— Porque o jornal diz que os bandidos é que estão perseguindo a polícia.
É a nossa triste realidade, mas não posso admitir isso para os alunos. Nós educadores temos o dever de manter a fé dos jovens nas instituições.
— Deve ter sido um truque da polícia pra armar uma cilada e prender os bandidos.
— Professora, se o jogo do bicho é proibido, por que a polícia não prende aquele homem que fica lá em frente à padaria? Ele fica sentado numa cadeira na calçada recebendo apostas no jogo do bicho.
— Vai ver que a polícia não sabe o que ele está fazendo.
Será que ele vai engolir essa?
— Se não sabe é muito otária, todo mundo sabe que ali é o ponto do bicho. A minha empregada vai todo dia lá fazer uma fezinha com ele.
Não engoliu.
— É uma questão social, ele não tem emprego e com o jogo do bicho ele ganha um dinheirinho pra levar pra casa.
— Professora, por que os juízes receberam dinheiro dos bicheiros?
— Foram só alguns juízes corruptos, mas eles já foram presos.
— Eles foram presos, mas logo depois foram soltos.
Alguém já disse que o Brasil não é um país sério.
— Eles vão ser julgados e se forem condenados vão ser presos de novo.
— Mas se eles forem julgados por outros juízes eles não vão ser condenados.
— Vão sim, a justiça vai ser feita.
Assim espero!
— Professora, por que os juízes foram soltos e os bicheiros ficaram presos?
— Os juízes foram soltos por que têm privilégios. Eles vão esperar o julgamento em liberdade.
— Por que eles têm privilégios e os bicheiros não? A senhora não explicou que a lei é igual pra todo mundo?
Esses garotos não são fáceis, estão me deixando na maior saia justa.
— Porque existe uma lei que diz que as pessoas que estudam e têm curso superior têm privilégios. É para incentivar as pessoas a estudarem.
— Quer dizer que tem uma lei pra quem estudou e é rico e outra pra quem é analfabeto e pobre?
A minha vontade é dizer que é isso mesmo, mas não posso.
— Nada disso. As leis são as mesmas para todos, mas têm particularidades.
— Professora, quem é que faz as leis? São os juízes?
— Não, os juízes julgam as pessoas baseados nas leis que são feitas pelos políticos do poder Legislativo. As leis são feitas para defender os interesses do povo.
— Mas os políticos não são corruptos? Não foram eles que receberam dinheiro do mensalão.
Quem mandou ser professora?E ainda mais pra ganhar uma merreca.
— Nem todo político é corrupto. Os que receberam dinheiro do mensalão foram cassados e estão respondendo processos criminais.
— Nem todos, professora, muitos foram absolvidos e saíram rindo. Teve uma deputada que até dançou de alegria. Eu vi na televisão.
Está cada vez mais difícil preservar a honra das nossas instituições. Ainda bem que falta pouco tempo para eu me aposentar.

terça-feira, 1 de maio de 2007

De alquimista a cronista

Nascido e criado num Rio de Janeiro que não existe mais. A infância e a adolescência passou entre a educação num colégio jesuíta e o lazer com colegas. Peladeiro convicto atuou tanto nas areias da praia como nas ruas e campos de futebol soçaite. Se talento lhe faltava, disposição tinha de sobra. Sofreu e sorriu com o seu Flamengo e assistiu ao milésimo gol do Pelé no Maracanã. Influenciado pelo pai, um pioneiro em caça submarina no Brasil, tomou gosto pelo mundo submarino. Não foi surfista, na sua época só se pegava jacaré. Andou de bonde e lotação até ter seu primeiro carro. Namorou e dançou ao som dos acordes da bossa nova e das guitarras dos Beatles. Casou-se com uma legítima garota de Ipanema, casamento que perdura até hoje e que gerou três lindas filhas.
Na hora de escolher uma profissão se aventurou pelos mistérios da alquimia. Seu primeiro emprego foi numa fábrica onde ficou muitos anos. Aos 40 deu uma guinada na carreira, trocou a área industrial pela comercial. Viajou por esse Brasil e pelo mundo afora, ampliou seus horizontes. Participou de reuniões, congressos ou simplesmente viajou de férias. Conheceu muitos lugares, fez novas amizades e colecionou momentos que se transformaram em doces recordações.
Em determinado momento as viagens de trabalho, a princípio prazerosas, se tornaram enfadonhas. Passava longas e solitárias horas em hotéis, aeroportos e aviões. Precisava arranjar algo para se distrair e não se tornar mais um alcoólatra em trânsito, como tantos que conheceu em suas andanças pelo mundo. Descobriu que escrever passava o tempo e encontrou a distração que procurava.
No início foram memórias, transferia para o papel momentos de sua existência. Numa segunda etapa vieram as crônicas, comentava e dava opinião sobre notícias da época. Resolveu ir além e, baseado num fato real e na sua imaginação, escreveu um conto. Foi o primeiro de muitos perpetuados mais tarde em livros. Tomou gosto pela arte de escrever e se viciou. Para se aperfeiçoar voltou a ler seus autores prediletos e freqüentou cursos e oficinas literárias onde aprendeu e fez preciosas amizades.
Sessentão e aposentado dedica-se aos netos, que para sua alegria não param de chegar a esse mundo. Pode ser encontrado pela manhã pedalando na ciclovia da Barra e à noite em mesas de pôquer e sinuca. Nas horas vagas entrega-se ao vício de escrever.

Viagem pelo mundo lexical

Li no jornal que um número expressivo de brasileiros sabe ler, mas não sabe interpretar o que lê. Entendem o significado de algumas palavras e frases curtas, mas não de um texto um pouco mais longo e complexo. São semi-analfabetos. Fechei o jornal e os olhos e embarquei numa viagem pelo mundo lexical.
A primeira idéia que me ocorreu foi que uma palavra isolada perde sua força. É como um soldado no campo de batalha que precisa do apoio de seus companheiros para lutar e sobreviver. Cada palavra-soldado tem sua função específica na tropa lingüística, seja substantivo, adjetivo, verbo, pronome ou outra especialidade. Elas se completam e formam frases, que alinhadas compõe parágrafos que dão vida ao texto.
Uma língua seria então um repertório destas palavras e cada idioma teria o seu. Sob esse aspecto traduzir seria uma tarefa fácil, bastaria substituir palavras de um idioma para o outro e montar frases. É o que fazem os programas de tradução instantânea com resultados desastrosos. Traduzir é mais do que substituir palavras, é transformar, adaptar, improvisar. Traduttore, traditore, diz o ditado italiano. Traduzir é trair no sentido que o texto traduzido é infiel ao original.
Todo língua possui suas características, peculiaridades e ambigüidades. Em português dizemos que vamos botar a calça e calçar a bota, quando mais lógico seria calçarmos a calça e botarmos a bota. Em idiomas diferentes as palavras nem sempre significam o que aparentam. Num país de língua inglesa ao se deparar com uma placa de PUSH numa porta, não puxe, empurre; se for PULL, não pule, puxe, e no caso de EXIT, não hesite, saia. A palavra saia, que acabei de usar é outro exemplo, isolada e fora do contexto não se sabe se é a peça do vestuário feminino ou o tempo verbal.
A informática, o economês, a internet e outras áreas tecnológicas estão sempre lançando palavras novas na mídia. Software, marketing e performance são exemplos de algumas já aceitas e incorporadas ao nosso vernáculo. Outras, como deletar, estresse, know how e impeachment, ainda estão sendo digeridas. Difíceis de engolir são as aportuguesadas fidebeque, leiaute e estartar. É a globalização introduzindo uma nova língua universal para facilitar a comunicação entre os povos, o que o esperanto tentou, mas não conseguiu.
Nesse ponto da viagem compreendi melhor as dificuldades dos semi-analfabetos tendo que conviver com todos esses neologismos e percalços lingüísticos. Abri os olhos e retomei a leitura do jornal.

O que é de gosto regala a vida

Alfredo passou mal no escritório chegando a desmaiar. Chamada às pressas para atendê-lo, sua filha única, médica, já o encontrou bem disposto e trabalhando normalmente — Foi uma bobagem, um mal estar passageiro — disse ele enquanto ela tirava sua pressão.
No dia seguinte ela o levou, sob protestos, para fazer um check-up no hospital em que trabalhava. Os resultados dos exames não acusaram nada de anormal — É excesso de trabalho, papai. Você precisa se distrair mais, relaxar, curtir a vida. Há quanto tempo você não tira umas férias?
Alfredo não respondeu, não teve coragem. As últimas férias haviam sido quando a levou para a Disney no seu aniversário de dez anos. Sabia que a filha tinha razão, ele se sentia mesmo estafado, mas relutava em se afastar do trabalho.
Na saída do hospital avistaram um outdoor de uma agência de turismo com a frase - Não leve tão a sério a sua existência. Você não vai sair dela com vida.
— Papai, essa frase foi feita sob medida pra você que vai acabar se matando de tanto trabalhar. Vai passar pela vida sem viver. Por que você e a mamãe não viajam para a Europa numa excursão? Aposto que vocês iriam adorar.
A frase e os argumentos da filha foram decisivos para ele tomar a decisão — Tudo bem, minha filha, eu tiro umas férias, mas nem pensar em Europa e viajar de avião. Eu vou é para São Lourenço e de carro.
— São Lourenço! Que falta de imaginação! Mas pensando bem é até melhor. Lá pelo menos você vai descansar e se alimentar bem.
No domingo Alfredo e a mulher seguiram para uma semana de férias em São Lourenço. Hospedaram-se no Hotel Brasil, o mesmo da lua de mel há trinta anos. O tempo havia passado e o hotel se modernizado, mas o programa era o mesmo. Manhã no parque das águas sulfurosas e magnesianas, foto no caramanchão do lago, miolo de pão para pombos e patos, pedalinho, charrete e um bom livro para ler.
Almoço seguido de cochilo na espreguiçadeira. À tardinha passeio a pé pelo comércio para comprar lembranças e bugigangas. Uma partida de biriba antes do jantar e depois cafezinho e chá na varanda. Os homens discutem política e futebol enquanto as mulheres assistem à novela na sala de televisão. Pouca coisa mudou dos tempos da lua de mel, só os momentos embaixo dos lençóis que não eram mais os mesmos.
O primeiro dia foi interessante, o segundo entediante e o terceiro angustiante. Alfredo sentia-se um inútil longe de seus relatórios, planilhas e contratos. A sensação era de um viciado tentando largar a droga. Pensou em ligar para o escritório e saber das novidades, mas conteve-se, estava ali para curtir as férias como havia prometido para a filha. Passou o resto da semana amargurado esperando pelo domingo.
Na segunda-feira voltou ansioso ao escritório. Deu um bom dia seco para os colegas, trancou-se na sala e mergulhou de cabeça na papelada. Não parou nem para almoçar. Como sempre foi o último a sair levando na pasta um relatório para terminar em casa. Precisava recuperar a semana perdida. Férias, nunca mais.

Vamos dar um tempo

O namoro começou na adolescência num cursinho de inglês. Naquele tempo não se ficava como nos dias de hoje e para dar uns amassos era preciso namorar. O relacionamento se firmou e prosseguiu durante o tempo de faculdade, ela de medicina e ele de engenharia. Brigas existiram, seguidas de reconciliações que fortaleceram a relação e acabaram por levá-los ao altar. Igreja lotada, recepção suntuosa, lua de mel na Europa e notas em colunas sociais.
Namoro longo, casamento curto. A repentina separação foi uma surpresa para quem os conhecia, na teoria eles formavam o casal perfeito, mas na prática não era bem assim. As desavenças começaram tão logo a poeira das bodas abaixou e a rotina do casamento se instalou. Incompatibilidade de horários; ela saía de um plantão para outro e ele sempre envolvido em viagens de trabalho. Quase nunca se encontravam e quando acontecia tinham objetivos diferentes, ele queria sair para se divertir e ela ficar em casa para colocar o sono em dia. Ele acabava saindo sozinho e a relação foi se deteriorando. Suspeitas, nunca confirmadas, de outra no pedaço.
Resolveram dar um tempo e cada um seguiu seu caminho sem guardar rancores. Ela voltou a se casar e teve dois filhos com um colega de profissão de quem se separou mais tarde. Ele continuou com suas viagens, morou em várias cidades e seus relacionamentos sempre foram passageiros. No início ainda se falavam e trocavam cartões nos aniversários e datas festivas, mas depois nem isso, com o passar do tempo perderam totalmente o contato.
O reencontro foi casual numa festa de casamento da filha de um amigo comum. Emocionados e desacompanhados aproveitaram a oportunidade que o destino lhes reservou. Beberam, comeram, dançaram, riram e conversaram sobre suas vidas depois da separação. Assunto é o que não faltava, tinham trinta anos de histórias para contar. Embalados pela emoção do reencontro e pelas muitas taças de prosecco que tomaram, decidiram terminar a noite no apartamento dele. A brasa da antiga paixão adolescente estava reacesa.
Entraram no apartamento tirando as roupas entre beijos e abraços acalorados. Cada peça que caía no chão revelava uma parte do corpo e trazia doces recordações, jogando mais lenha na fogueira da paixão. Enfim nus, melhor dizendo, novamente nus. O tempo havia sido cruel e deixado marcas na dupla cinqüentona: celulites, varizes, barrigas e carnes flácidas. Detalhes insignificantes e incapazes de apagar o fogaréu que os consumia naquele momento.
A noite foi curta para apaziguar toda aquela paixão e os encontros se repetiram. Eles tinham um passado para resgatar, um presente para aproveitar e, quem sabe, um futuro para compartilhar.

Vem quente que eu estou fervendo

Meu neto de 10 anos me perguntou se o mundo ia acabar por causa do aquecimento global. Respondi que o problema era sério, mas que ele não precisava ficar preocupado porque ninguém ia morrer por causa disso. Ao voltar para casa fui me informar melhor sobre o assunto disposto a lhe dar uma aula completa sobre aquecimento global. Precisava tranqüilizá-lo e manter a fama de vovô-sabe-tudo.
Descobri que os primeiros registros de aumento da temperatura terrestre datam de meados do século 19, ou seja, o problema não é novo, existe há pelo menos 150 anos. A situação se agravou na segunda metade do século passado com a explosão do consumo e a evolução das indústrias petrolífera, automobilística e de outras fontes poluidoras do meio ambiente. As previsões atuais são drásticas, uma elevação de 6 graus na temperatura do planeta e de quase um metro no nível do mar provocarão catástrofes climáticas devastadoras, principalmente na segunda metade do século.
Identifiquei também três formas distintas de encarar o problema. Os alarmistas acham que a situação é gravíssima e sem solução, que o planeta Terra está com os dias contados e a humanidade fadada a desaparecer. Neste grupo estão os ecochatos do Greenpeace preocupados com o futuro de geleiras, focas e pingüins. De outro lado os otimistas dizem que a situação não é tão preta como parece e contestam as previsões científicas. Para eles o aquecimento global tem solução e é preciso haver uma conscientização mundial para que se possa fazer algo. Um último grupo é o dos que não estão nem aí para o assunto. Acham que como as catástrofes só irão ocorrer daqui a dezenas de anos o problema é das próximas gerações. São os egoístas e inconseqüentes.
Razoavelmente informado me alinhei com os otimistas. Não me aprofundei no assunto porque um otimista é antes de tudo um mal informado. Preparei-me então para explicar para uma criança de 10 anos o efeito estufa, buraco de ozônio, gases poluentes, etc. Comecei dizendo que nosso planeta estava doente com febre e precisava se tratar para ficar bom. Ele me interrompeu, pegou na mochila um trabalho que fez para a escola sobre aquecimento global e me entregou. Examinei o material e estava tudo lá, tudo que eu havia preparado para lhe ensinar, até o Protocolo de Kyoto.
— Onde é que você aprendeu tudo isso? — perguntei abismado.
— Eu pesquisei na internet — ele respondeu orgulhoso.
Já não se precisam mais de avôs como antigamente.

terça-feira, 17 de abril de 2007

Arroz também é gente

— Você viu essa? — diz o marido lendo o jornal — Depois de clones de ovelhas e de outros animais dessa vez inventaram um arroz com DNA humano para produção de vacinas e remédios.
— Como é que é? — pergunta a mulher curiosa.
—Agora o arroz também é gente e vai ter pedigree. A embalagem vai mostrar a data em que ele foi gerado, o local e o nome dos pais, como numa certidão de nascimento.
— E a gente vai comprar no supermercado ou adotar numa maternidade?
— Isso eu não sei, mas vamos ter que carregar com cuidado no colo e quando chegar em casa colocar no berço. Nada de despensa.
— E como é que a gente vai escolher o arroz? Pelo nome de família?
— O arroz vai ser conhecido pelo nome de seus progenitores. Os livros de culinária e os mestres cucas vão indicar o tipo mais adequado para cada refeição. Por exemplo, um arroz à grega vai ter obrigatoriamente descendência grega. Para acompanhar uma feijoada o arroz pode ser um Zeca Pagodinho ou um Romário. Um estrogonofe tem que usar arroz russo. Você já imaginou que delícia deve ser um arroz Sharapova? E de sobremesa um arroz doce Juliana Paes com leite condensado e canela em cima. Só de pensar me dá água na boca.
— Vai fazer sucesso entre os homens, mas não vai agradar ao público feminino. Para nós mulheres o ideal é um risoto preparado com um Leonardo di Caprio, uma paella com um Antonio Banderas ou um arroz de forno com um Rodrigo Santoro.
— A escolha do arroz vai ser importantíssima para não se cometer gafes. Um banquete requer um arroz soltinho e sofisticado, um Gisele Bünchen, que não deve ser nunca usado com um feijão mulatinho qualquer. Já uma boa bacalhoada pede um arroz português, encorpado e denso, um José Saramago. Parboilizado para facilitar a digestão.
— Se inventaram a paternidade para o arroz, será que vão inventar também para outras plantas?
— Com certeza, a política brasileira é pródiga em progenitores. O Alckmin vai dar um chuchu de primeira e o Lula um ótimo pé de cana. O Aécio poderia até gerar uma excelente couve mineira, mas ele tem vocação mesmo é pra arroz de festa.
— E quem vai ser o pai da nossa cannabis?
— O Gabeira, sem sombra de dúvida.

sábado, 14 de abril de 2007

Operação padrão

— O que deu em você para querer sair na sexta-feira? A mocréia da tua mulher morreu?
— Não, mas ela vai viajar e levar o Junior. Estou livre nesse fim de semana.
— A gente vai poder pegar um cineminha e tomar um chope depois, ou você vai querer ir direto pro motel como sempre?
— Bem que eu queria minha querida, mas você sabe que não posso.
— Eu mereço! Mas quem mandou me meter com homem casado? A que horas você me pega na sexta?
— O vôo deles sai as cinco e assim que estiver livre eu te ligo e te pego no trabalho lá pelas seis. A gente vai direto pro motel tomar aquele banho gostoso, um jantarzinho caprichado e depois dormir agarradinho. Sem pressa e nem hora pra terminar.
— Eu só acredito vendo. É melhor não contar com o ovo você sabe onde. Você já me deixou na mão muitas vezes com os teus problemas familiares.
— Dessa vez não tem erro, benzinho. As passagens já estão compradas e eles vão na sexta pro aniversário da minha sogra em Belo Horizonte e só voltam no domingo à noite. Esse fim de semana é todo nosso. Um beijão pra você — ele deu um beijo estalado no celular e desligou.
Na sexta-feira saiu cedo do trabalho, almoçou em casa e antes das quatro estava no aeroporto com a mulher e o filho. Às seis horas ligou do banheiro para a amante.
— Ainda estou aqui no aeroporto, meu amor, isso aqui está uma zona e todos os vôos estão atrasados. Você tem que ter paciência.
— Eu sabia que você ia aprontar mais uma. E ainda caio na tua conversa.
— A culpa não é minha, minha flor, os controladores de vôo estão em operação padrão e está um caos em todos os aeroportos do país. Você pode ver na televisão.
— Você nunca tem culpa de nada, parece até o Lula. O quê que eu tenho a ver com essa operação padrão? Não vou viajar pra lugar nenhum e sobrou pra mim.
— Espera só mais um pouquinho que eu te ligo assim que eles forem. Agora tenho que desligar pra ver se já tem uma previsão de embarque. Um beijão.
Duas horas depois ele ainda está na fila do check-in com a mulher e o filho. O celular toca, ele vê que é ela e não atende.
— Quem era? — a mulher dele quis saber.
--Era o Jorge — ele desconversa — Depois eu ligo pra ele, agora estou ocupado.
— Ocupado com que? Nós estamos em pé aqui nessa droga de fila há mais de três horas sem nada pra fazer. Liga logo pra ele que pode ser alguma coisa importante.
— Agora não, meu bem. Ele fala muito e deve ser uma bobagem qualquer, mais tarde eu ligo. Eu estou aqui pra dar atenção pra vocês — retrucou preocupado.
— Papai, eu quero fazer xixi.
Salvo pelo gongo! Pegou o menino pelo braço e saiu rápido dali. Aproveitou para ligar para a amante do banheiro enquanto se aliviava ao lado do filho.
— Ô Jorge, eu ainda estou aqui no aeroporto com a família e o vôo deles está atrasado. Não precisa me ligar de novo que eu te ligo assim que puder.
— Jorge você sabe quem é. Vou te esperar só mais meia hora, nem mais um minuto, depois disso não precisa ligar mais — ela deu um ultimato.
— Tudo bem, Jorge, eu ligo assim que puder — ele quase se esquece que o garoto está ao lado e manda o tradicional beijão pro “Jorge”. Força do hábito.
Voltou para a fila e para a mulher. A situação continua a mesma, sem previsão de embarque. Alguém comenta que é a tal operação padrão.
— Se é padrão tinha que melhorar e não causar essa zorra toda. Essa esculhambação só acontece no Brasil — ele esbraveja irritado com a passividade geral.
Às nove e meia um funcionário da companhia aérea anunciou que o vôo estava cancelado e eles só iriam embarcar no dia seguinte. Depois de muita gritaria e tumulto no saguão do aeroporto ele não teve outro jeito senão voltar para casa com a mulher e o filho. A noite de sexta estava perdida. Lá pelas dez horas da manhã de sábado conseguiu finalmente despachar os dois e assim que se viu sozinho, ligou para a amante.
— Mil desculpas, meu amor, mas não foi culpa minha. Tentei te ligar ontem à noite, mas o teu celular estava fora de área.
— Estava desligado — ela respondeu seca.
— Eu tenho boas notícias, eles já embarcaram e eu estou livre. Eu posso te pegar a hora que você quiser. Hoje sou todo teu.
— Hoje não vai dar — ela economizava palavras.
— Como é que é? Estou livre, meu bem, e sou todo teu. Eles já estão voando e está tudo certo agora. Podemos passar o dia e a noite juntos.
-- Hoje não vai dar — ela repetiu no mesmo tom de voz.
— Mas por que isso? O que deu em você? — ele perguntou desesperado.
— Nada de fim de semana. Também estou em operação padrão!