domingo, 29 de janeiro de 2012

Ipanema era só felicidade

Num sábado chuvoso e frio deste estranho verão de 2012 fui assistir ao filme sobre Tom Jobim. Admirador confesso do artista e da bossa nova eu esperava bastante do documentário, mas o que assisti superou em muito a minha expectativa. Mais do que um documentário, o filme é uma imensa trilha sonora ilustrada com fotos e filmes de uma época que deixou saudade. Um dos filmes mostra o Aterro do Flamengo ainda de terra batida, sem os jardins de Burle Max, a praia de Copacabana sem as pistas duplicadas e os bondes e lotações da época. A vida de Tom Jobim é apresentada através de suas músicas, sem narrativas e depoimentos muitas vezes cansativos. O filme tem uma dinâmica ótima e termina sem se sentir, deixando na platéia aquele gostinho de quero mais. Saí do cinema com uma puta nostalgia e fui dormir com a batida da bossa nova na cabeça.

Senti nostalgia de minha adolescência nos anos 60, de um tempo feliz, ai que saudade, de uma Ipanema que era só felicidade. Da janela do meu quarto na Alberto de Campos eu via o Corcovado, o Redentor que lindo. Nas festinhas e reuniões dançantes em casas de famílias dançávamos com legítimas garotas de corpo dourado do sol de Ipanema com um balançado que é mais que um poema. Acabei me casando com uma delas. Um dos discos mais tocados era o Chega de Saudade do João Gilberto. Para os mais jovens que não viveram aquela época, os discos LP (Long Play) eram tocados em vitrolas Hi-Fi (alta fidelidade), não confundam com o Wi-Fi de hoje.

Ouvi One Note Samba, Drinking Water e The Girl from Ipanema por diversos intérpretes, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Sammy Davis Jr e o famoso dueto de Tom e Sinatra, entre outros tantos. Além de inglês ouvi versões em francês, italiano e até em alemão, que não combina nada com a bossa nova. No original em português com os saudosos Agostinho dos Santos e Elis Regina.

O filme me fez lembrar uma temporada de treinamento que passei em San Francisco. Soube por um colega americano de um bar que tocava bossa nova nas happy hours. Depois do trabalho fui conferir e ouvir um pouco de música brasileira. O conjunto era uma merda, com três mexicanos e uma brasileira, namorada de um deles, que assassinavam a bossa nova, o forte deles era mesmo Cielito Lindo. Mesmo assim, depois de quase dois meses longe de casa, fiquei com os olhos cheios d´água ao ouvir "se você disser que desafino amor", música que tinha tudo a ver com o conjunto.

Ao sair do cinema fiquei tentando descobrir qual seria a minha música favorita. Samba do avião, um hino à cidade do Rio, Chega de Saudade, um marco na bossa nova, Dindi, melodiosa e de difícil interpretação, Anos Dourados, de parceria com Chico Buarque, e tantas outras vieram à minha cabeça. Mas se tivesse que escolher um fundo musical para minha vida ficaria sem dúvidas com Wave.

Fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho. O resto é mar, é tudo que não sei contar...

domingo, 3 de julho de 2011

Marcha soldado, vadia e maconheiro


— Filha, vai haver a marcha da maconha outra vez? — perguntou a mãe ao ver a filha vestir a camiseta com a cannabis estampada.
—Não mamãe, dessa vez é a marcha das vadias, nós só vamos dar apoio — respondeu a filha.
— Faz sentido — murmurou a mãe resignada e sem querer discutir com a filha.

A estréia da Marcha das Vadias foi discreta com apenas 500 participantes, mas tem potencial para crescer. O que não falta nesse Brasil é vadia e à medida que as enrustidas forem assumindo sua verdadeira condição, a marcha tem tudo para emplacar e ser um sucesso. As participantes são contra o machismo e reivindicam o direito das mulheres de dispor do próprio corpo como bem entenderem. Nada mais justo.

Antes as marchas eram associadas aos militares. Marcha soldado, cabeça de papel, cantam as crianças. Hoje elas proliferaram e diversificaram. Além das já citadas marchas da maconha e das vadias, a Parada Gay é um sucesso em São Paulo. Nesse caso a palavra “Parada” está mal empregada já que o desfile se locomove, melhor seria ser denominada de Marcha a Ré. A cada ano o número de participantes aumenta. Bichas e sapatas, agora sob o amparo da lei, saem cada vez mais do armário para desfilarem deslumbradas e abraçadas na Avenida Paulista. Antes que vocês me tachem de homofóbico e seguidor do Bolsonaro, aviso que nada tenho contra a categoria. Desde que não seja no meu, cada um faz o que quiser com o seu.

Outras marchas podem ser organizadas para fazer parte de um calendário nacional das marchas, criando um novo atrativo turístico para o Brasil ao lado do carnaval e das festas de Ano Novo.

Podemos ter a Marcha dos Corruptos, cujo palco principal seria Brasília, mas qualquer estado ou município brasileiro estaria apto a ter seu próprio desfile. Assim como as vadias, nossos parlamentares e assessores também reivindicariam o direito de usufruir do próprio mandato e cargo como bem entenderem. Nada mais justo e atual.

Uma marcha com bom potencial seria a dos desempregados, aposentados e desocupados. Teria a vantagem de poder desfilar em qualquer dia, sem a necessidade de ser nos fins de semana. A reivindicação do grupo seria mais bolsas do governo e menos trabalho. Cada participante da marcha, devidamente cadastrado, receberia uma bolsa desfile, isenta de imposto e com direito a ticket refeição e décimo terceiro. Na minha condição de aposentado sou candidato a participar da marcha e principalmente da bolsa, assim como você que não tem nada melhor para fazer do que ler essa babaquice.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Feliz fim do mundo

Ano novo, vida nova, só que desta vez a situação é diferente. Estamos nos aproximando cada vez mais do fim do mundo. Um antigo calendário maia indica que o mundo irá acabar em 2012, mais precisamente no dia 21 de dezembro de 2012.
Como? Se o César Maia tem a ver com isso? Não, meu caro, desta vez não se trata de mais um factóide do nosso alucinado ex prefeito. O maia a que me refiro é do antigo povo maia.
O que vai acontecer no dia 21 de dezembro de 2012? Os astrólogos prevêem uma conjunção cósmica, o fim de um ciclo ou algo parecido, mas na verdade, ninguém sabe ao certo o que vai acontecer.
O que se sabe é o que não vai acontecer se a previsão estiver certa: a copa no Brasil e as olimpíadas no Rio, por exemplo. O sonho do hexacampeonato termina e seremos eternamente pentacampeões. Em compensação, nunca seremos alcançados pela Itália, Alemanha ou Argentina. Como tudo na vida, existe o lado bom e o ruim. Se por um lado estamos pertos do fim, por outro ficaremos livres da volta do Lula em 2014.
O importante é ter em mente que nos restam poucos dias pela frente e por isso é preciso mudar nossos hábitos para usufruir melhor o gran finale. Não adianta mais você poupar, investir ou economizar. A ordem daqui pra frente é gastar, consumir e desperdiçar. Troque de carro, faça aquela viagem tão sonhada, jogue suas roupas velhas fora e faça um enxoval novo para o fim do mundo.
Você não tem dinheiro para isso? Não importa, faça empréstimos, hipoteque sua casa, estoure o limite do cheque especial e dos cartões de créditos. Contraia dívidas, mas lembre-se, para pagar em 2013. Pare de pagar os impostos e rasgue os carnês do IPTU, IPVA, IRPF. Imagine o prazer que isto lhe proporcionará. Chute o balde e peça demissão no emprego. Vá curtir a vida. Você não vai querer passar seus últimos dias atrás de um computador e aturando um chefe chato.
Nada de dietas e regimes, coma tudo que você quiser e quanto puder, sem se preocupar com a balança, colesterol, diabete e outras besteiras. Se você largou o cigarro e o copo, volte a fumar e a beber. Pra que morrer com saúde? Seu corpo está com os dias contados, assim como todo o resto da humanidade. Você tem que usufruir da melhor forma seus últimos momentos e comemorar.
Faça como o nosso atual prefeito que está programando um mega evento para comemorar a chegada do fim do mundo. Ele está pensando em fazer uma festa grandiosa na praia de Copacabana e fechar o bairro por uma semana para deleite dos seus moradores. Será o show do fim do mundo com apresentações de Roberto Carlos, Madonna, Paul McCartney, Rolling Stones e outros. Todos contratados com cachês milionários para receber em 2013.
A mensagem está dada: viva seus últimos momentos na terra em grande estilo.
Você quer saber o que vai acontecer se os maias estiverem errados e o mundo não acabar? Realmente existe essa possibilidade e o que eu posso lhe adiantar é que se você seguiu meus conselhos o seu ano de 2013 não vai ser fácil.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Noticiário político faz mal à saúde


Agora que a Copa acabou e ficamos livres do Dunga, está na hora de nos prepararmos para o outro evento de 2010, as eleições. O que significa que nos defrontaremos novamente com a dúvida cruel: em quem votar? Tenho ouvido muita gente dizer por aí que vai votar em branco ou anular o voto, que os políticos são todos uns canalhas e não merecem nossa confiança. Nada contra os que assim decidirem, mas para mim não funciona. Sou de uma geração que ficou sem votar por um longo período, meu título de eleitor ficou enfurnado no fundo de uma gaveta por muitos anos. Por isso não vou desperdiçar a oportunidade e tenho que escolher aqueles que merecerão o meu voto.

Antigamente era mais fácil decidir, o candidato era de direita ou de esquerda, do bem ou do mal, dependendo do lado em que você estava. Hoje em dia não existe mais essa divisão simplista e radical que facilitava a decisão, agora são todos do mal, independente do lado em que estão. Eles só querem o seu voto, estão se lixando para a sua opinião. Você coloca os seus votos na urna para depois de eleitos eles colocarem o seu dinheiro nas meias e nas cuecas. Os partidos políticos abandonaram os ideais e se transformaram em quadrilhas especializadas em assaltar os cofres públicos.

A primeira sugestão que dou para quem quer escolher um candidato é parar de ler e assistir matérias sobre política. Fique afastado principalmente do horário político, desligue a televisão ou coloque no mute enquanto espera a novela. Vai por mim que é mais seguro; é melhor você votar mal informado do que iludido. Você pode ficar influenciado pela perigosa lábia dos nossos parlamentares que são muito persuasivos e poderão enganá-lo facilmente. Se você é daqueles que não é fácil de enganar, vai ficar com tanta raiva que corre o risco de fazer uma úlcera. O Ministério da Saúde devia advertir aos eleitores – Noticiário político faz mal à saúde.

Cuidado em especial com o nosso presidente. Quanto mais escândalos surgem no seu governo, mais aumenta a sua popularidade. Ele se alia com antigos desafetos e com a banda podre da política e nada lhe acontece. É inacreditável. Com seus discursos verborrágicos cheios de metáforas e erros de concordância ele é capaz de vender gelo para esquimó, quanto mais nos empurrar goela abaixo a sua insossa candidata. O homem é um gênio da comunicação e seu poder de enrolação ultrapassou nossas fronteiras e conquistou o mundo. Ele foi eleito estadista global e nós tivemos que engolir mais esta. Fique longe dele.

Nada de votar em ex-jogadores de futebol, artistas e figuras populares como o fulaninho do posto ou o pipoqueiro da pracinha. A história nos tem mostrado que eles são péssimos representantes e querem se eleger apenas para se locupletar com o dinheiro público. Em pastores de igrejas evangélicas, então, nem pensar. Não satisfeitos em sugar o dinheiro dos incautos nos cultos eles também querem mamar nas tetas do governo. Não contribua para alimentá-los, eles que suem a camisa para se sustentar.

Existe uma campanha para renovar e não reeleger nenhum político atual, votar em candidatos novos. Tenho minhas dúvidas quanto à eficácia desta estratégia. Os que já estão nos cargos são ratos gordos que roubam apenas para se manterem, enquanto os novos ainda vão ter que roubar para enriquecerem. O prejuízo aos nossos bolsos pode ser ainda maior

Se você tiver algum amigo ou parente candidato, vote nele, mesmo sabendo que ele não é flor que se cheire. Calhorda por calhorda, esse pelo menos é seu conhecido e você pode ter a chance de lhe dizer umas verdades cara a cara.

Se esses conselhos o ajudaram a escolher seu candidato, meus parabéns, você é uma pessoa de sorte. Eu continuo sem a menor idéia em quem votar.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

O El Cid de Los Angeles


Assim como El Cid que lutou morto a última batalha, o pop star Michael Jackson também continua atuando enquanto não decidem o que fazer com seus despojos. O show não pode parar e seu corpo insepulto atrai multidões a Los Angeles e garante o faturamento de sua família, de empresários e do comércio local. É o turismo fúnebre. Enquanto seus potenciais herdeiros brigam pela herança, o seu velório virou um mega espetáculo num estádio onde o principal astro compareceria embalsamado, com a aparência não muito diferente das suas últimas performances. Há quem diga que ele já estava morto há bastante tempo e só agora decidiram divulgar.
Entretanto, o velório do astro não devia se limitar à cidade de Los Angeles, o mundo inteiro tem o direito de ver e se despedir do rei do pop. Seus empresários não deviam cancelar a turnê mundial que estava programada, basta colocar o corpo num avião, e nesse caso pode ser um Airbus uma vez que o principal passageiro já embarcaria morto, e sair mundo afora pelos lugares por onde ele passou, do Dona Marta ao Picadilly Circus.
Uma outra hipótese seria não enterrá-lo nunca, deixá-lo embalsamado e transformá-lo numa nova atração da Disney, ou de um parque temático a ser criado no sítio Neverland. Com os recursos tecnológicos e alguns chips no corpo ele poderia até mesmo dar o famoso passo moonwalk. Poderia se dizer então com segurança que, assim como seu sogro Elvis, Michael Jackson não morreu.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Os óculos do poeta


Sou um caçador de notícias que possam render uma boa crônica e nesta semana me chamou a atenção o roubo dos óculos da estátua do Carlos Drummond de Andrade. Pelo que li no jornal foi a terceira vez que roubaram, basta reporem a peça que alguém vai lá e a surrupia.
O que não consigo entender é para que servem uns óculos de estátua? Talvez seja um fã roubando para ter uma recordação do ídolo, ou um ato de puro vandalismo, mas por que cismaram justamente com os óculos do poeta?
Abro aqui um parágrafo para lucubrar um pouco sobre a palavra óculos. Apesar de se tratar de um objeto único o vocábulo se refere a um par de óculos, ou simplificando óculos, e por isso a palavra pede o plural. Esclarecida essa curiosidade lingüística, fecho o parágrafo e volto para Drummond e seu infortúnio.
Como se não bastasse servir de banheiro para pombos e ficar exposto às intempéries, sem óculos nosso poeta fica privado de enxergar o que se passa ao seu redor. É mais uma maldade que se faz com tão ilustre personagem. A primeira foi colocar sua estátua virada para os edifícios. Tenho certeza que se pudesse escolher esse mineiro de Itabira iria preferir se sentar apreciando o marzão e mulheres de biquíni na areia. Encontraria com mais facilidade inspiração para seus poemas e crônicas.
Mas voltando à pergunta inicial: por que roubaram os óculos do poeta? Quem rouba alguma coisa o faz com uma finalidade, mas nesse caso não consigo entender o motivo. Houve uma época em que foi moda roubar escudos de carros. Não havia um fusca na cidade com o escudo com o logotipo da fábrica. Os jovens roubavam para usar como enfeite nos fichários. Não deixava de ser um ato ilegal e deplorável, mas com uma finalidade. Já os óculos de bronze de uma estátua não servem para nada.
Se ao menos tivessem o poder de transferir a quem os usasse a visão do mundo e a genialidade do poeta o roubo teria uma justificativa. O privilegiado que usasse os óculos poderia dar continuidade à obra do artista.
Só me resta dar uma sugestão ao ladrão. Que guarde os óculos com cuidado para colocar na estátua do presidente Lula, que certamente algum dia vai ter uma, se é que já não tem. Pode ser que com os óculos do Drummond a estátua enxergue o que o ser humano não consegue enxergar.

Créu na praça


— Ouve só essa: a Holanda vai liberar sexo nas praças públicas.
— Como é que é? Sexo mesmo, transar pra valer?
— É o que tá escrito aqui no jornal.
— Quer dizer que o cara escolhe uma mulher numa daquelas vitrines e vai experimentar na praça. Se não gostar volta pra trocar por outra.
— É isso aí. Ou ele pode pegar uma mulher num barzinho, pedir um baseado pra viagem e ir desfrutar a erva e a mulher num parque das redondezas. Tudo dentro da lei.
— Isso é que é país avançado, não é aquela caretice dos Estados Unidos que derrubou o governador de Nova York só porque saiu com uma garota de programa. E olha que ele nem pagou com cartão corporativo.
— Mas eles vão se danar porque o vice que assumiu é cego. Não vai ver nada, igual ao nosso presidente.
— A Holanda sempre esteve na vanguarda. A nossa ministra de Sexo e Turismo devia dar um giro por lá e tirar umas idéias em vez de ficar mandando a gente relaxar e gozar.
— Essa de transar em praça pública é uma boa, ao ar livre, com flores e passarinhos cantando em volta. Dá pra fazer sexo e ainda pegar um bronze. É muito mais saudável do que em motéis.
— No inverno é que vai ser dureza. Lá faz um frio terrível.
— Eles dão um jeito e botam aqueles casacões de pele. Vão parecer dois ursos se acasalando na neve.
— Será que qualquer um pode fazer sexo nas praças, ou vai ter que ter licença?
— Talvez tenha que tirar uma carteirinha. O problema vai ser onde pendurar a carteirinha quando o casal estiver em atividade.
— E pode ser em qualquer lugar da praça?
— Aqui diz que tem ser longe das crianças. O playground tem que ficar de um lado e o fuckground do outro, cada qual com seu trepa-trepa.
— O que mais diz a notícia?
— Diz também que os policiais não podem interferir, a menos que o casal esteja perturbando a ordem pública.
— O que será perturbar a ordem pública numa trepada?
— Sei lá. Vai ver que só pode fazer papai-e-mamãe e não vale gemer alto.
— Deve ser por aí. Será que pode sexo grupal?
— Uma suruba ao ar livre, você quer dizer.
— Isso mesmo. Uma festinha de final de ano, de aniversário, de formatura.
— Por que não? Desde que não perturbem a tal ordem pública e no final deixem tudo limpo. Não pode é se lavar no laguinho da praça e deixar preservativos espalhados pelo chão.
— E o sexo vai ser liberado em qualquer praça?
— Acho que sim. Eles só vão ter que alterar as placas dos gramados. Vão ter que colocar – É proibido pisar e trepar na grama.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Verão carioca


No calendário o seu início é lá pelos meados de dezembro, mas é em janeiro que a cidade entra pra valer no clima de verão. É a estação com a cara do Rio. Praias cheias de crianças, mamães, babás, velhos, turistas, surfistas, vendedores ambulantes, catadores de latas, rapazes sarados e moças de corpos dourados. Para aplacar a sede e espantar o calor haja água de coco, mate gelado, refrigerante, refresco e sorvete. Pouca roupa e muito protetor solar. Mulheres exibem corpos bronzeados em vestidos leves deixando-as ainda mais sensuais. A minissaia, inventada na Inglaterra, é o uniforme oficial do verão carioca. Homens suados vagam pelas ruas com paletós nos ombros em busca de um papo amigo e de um chope gelado.
O dia insiste em não terminar e dar lugar à noite. É época de aplaudir o pôr do sol no mar, um privilégio carioca. O calor não dá tréguas. Sol escaldante e asfalto amolecendo. Termômetros beirando a casa dos quarenta. Ar condicionado a pleno vapor gotejando nas calçadas e nos pedestres. É cruel com quem tem que trabalhar, a cidade deveria entrar em recesso de verão.
Fevereiro é o começo oficial do ano letivo, embora aulas pra valer só em março. É também o mês do carnaval, o grande momento do verão. Banda de bairro, bloco de sujo e baile gay. Travestis e mulheres se misturam e se confundem num festival de silicone e sacanagem. Sapucaí, fantasias, plumas, baterias, alegorias e muita mulher pelada. Mudam os enredos, mas a mesmice continua. Genitália desnuda já não impressiona mais. Talvez uma cópula ao vivo faça sucesso: preliminares na concentração, evolução na avenida e apoteose na praça do mesmo nome. Sempre mantendo a harmonia e sem atravessar o samba para não perder pontos.
Em março os turistas já se foram e a cidade entra em ritmo de trabalho. Mas as praias continuam cheias com os termômetros ainda em alta. É o carioca que se despede dos últimos momentos da estação. O horário de verão já terminou, a noite expulsou o dia e retomou seu lugar no firmamento. Nuvens carregadas e ameaçadoras se formam no horizonte. Temporais desabam nos fins de tarde alagando ruas e transtornando a vida da cidade. São as águas de março fechando o verão e a crônica.

domingo, 23 de dezembro de 2007

É fim de ano

Varandas enfeitadas e iluminadas anunciam a chegada do natal. Shoppings lotados de gente feliz carregando sacolas de compras. Papais Noel de aluguel atraem fregueses nas portas das lojas. Crianças escolhem nas vitrines os presentes mais caros para desespero dos pais. Listas do carteiro, lixeiro, porteiro, jornaleiro e até do entregador de pizza. Em boa hora chega o décimo terceiro e ajuda a bancar a festa.
Bares e restaurantes repletos de pessoas confraternizando. Amigo oculto e troca de CDs pirata, agendas, águas de colônia de farmácia e inutilidades para o lar. Hora de abrir presentes e corações para reatar velhas amizades, de renovar planos para o ano que vai iniciar, mesmo sabendo que dificilmente irão se realizar. Planos de voltar a estudar, pagar as dívidas, poupar dinheiro, viajar, trocar de carro e fazer aquela plástica a muito sonhada.
Noite Feliz. Casa cheia de gente com roupa nova. Árvore de natal piscando e crianças correndo em volta ansiosas para abrir os presentes. Parentes distantes trocam informações sobre quem nasceu e quem morreu; quem casou e quem se separou. Mesa farta com fila para se servir de peru, pernil, presunto, bacalhau e farofa. Faz calor no natal tropical, uma cervejinha gelada cai melhor do que um tinto encorpado. A tia velha e gorda se empapuça de pernil, rabanadas, nozes e castanhas. Que se dane a dieta, pode ser seu último natal. Algazarra na distribuição de presentes. Fim de festa com papel de presente espalhado pelo chão e crianças dormindo nos colos dos pais.
Uma semana de trégua e a festa recomeça. Especial do Roberto Carlos, reveillon do Faustão e flores para Iemanjá. Queima de fogos em Copacabana e árvore flutuante na Lagoa. Meia noite. Espocam champanhes e planos para o ano novo. Bebedeira geral. Gente de branco pelas ruas se abraçando e saudando o ano que acabou de começar.
Ressaca logo no primeiro dia. Aos poucos o sonho se desfaz e a vida volta ao normal. IPTU, IPVA, cartão de crédito para pagar sem o décimo terceiro para ajudar. No ano que vem tudo vai mudar.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

O porre que mudou a história do Brasil


Brasília, Palácio do Planalto, Gabinete da Presidência.
24 de agosto de 1961, seis da tarde — Abri uma garrafa e me servi uma dose generosa. Estavam todos contra mim, as forças armadas, os políticos da oposição e até os do meu próprio partido. Nem parecia que eu havia sido eleito presidente a menos de um ano e varrido com minha vassoura aquele marechal arrogante. Eles esqueceram rápido. O presidente americano havia apresentado um protesto veemente quando reatei relações comerciais com a União Soviética, China e Cuba. Eu queria ter visto a cara dele quando descobriu que também condecorei o Che Guevara. Por aqui também não pegou bem a condecoração, meus ministros militares não gostaram nem um pouco.
Acabou o gelo, servi uma dose caubói, dei um gole e despachei uma dúzia de bilhetinhos para meus assessores. Implicavam com tudo que eu fazia, reclamavam das proibições das brigas de galo, corridas de cavalo no meio da semana, lança-perfume e biquíni. Reclamavam até da roupa que eu vestia. Diziam que eu devia ter me ocupado com coisas mais importantes. Eles não sabiam o que era uma administração moderna e eficiente.
Dei mais um gole e a bebida desceu proporcionando uma agradável sensação. Até aquele jornalistazinho cretino que foi eleito governador da Guanabara se virou contra mim e veio falar em complô. Precisava dar uma resposta a altura para cortar as asas dele e colocá-lo no seu lugar. Se ele pensava que ia fazer comigo o que fez com o Getulio estava muito enganado. Decidi fazer um pronunciamento à nação pra mostrar com quem ele estava se metendo.
Reabasteci o copo e me preparei pra escrever o manifesto. Tinha que ser algo firme e contundente, algo que calasse a boca dele e mostrasse quem manda no país. Decidi transformar o manifesto numa carta de renúncia. Era isso! Ia dar um susto na nação ameaçando renunciar pra mostrar que eles precisavam mais de mim do que eu deles.
A idéia me empolgou, bebi num só gole e tornei a encher o copo. As palavras se multiplicavam no papel enquanto o copo se esvaziava. Já passava de meia-noite quando terminei a carta e a garrafa. Uma carta que iria sacudir o país. Fiquei cansado, mas satisfeito. Sem condições para ir até meu quarto dormi como estava no sofá do gabinete.
25 de agosto de 1961, seis da manhã — Acordei numa tremenda ressaca com a cabeça pesada e a boca amarga. Encontrei em cima da mesa a carta renúncia ao lado da garrafa vazia. Lembrei-me vagamente do que se passara na noite passada. Meu primeiro impulso foi rasgá-la, mas resolvi ler o que havia escrito. Fiquei sem saber quem eram as tais forças ocultas que mencionei, mas gostei do mistério que dava um toque de realismo ao pedido. Decidi enviar a carta como estava. Coloquei-a num envelope, lacrei-o e deixei-o na mesa da minha secretária com um bilhetinho para encaminhá-lo ao presidente do congresso às dez da manhã. Segui para meus aposentos e mandei Eloá preparar as malas porque íamos viajar.
Onze da manhã – No vôo para casa imaginei o impacto que a carta estaria causando e a cena do presidente do congresso reunido com os ministros militares discutindo meu pedido de renúncia. Eles nunca iriam aceitar e entregar o país para o meu vice. Ruim comigo, pior com ele e eles sabiam disso. Já instalado em meu apartamento em São Paulo aguardei a ligação de Brasília me implorando para voltar. Eu iria sair fortalecido daquela crise e imporia minhas condições. Eles não perdiam por esperar.
Três da tarde — O telefone tocou e fui comunicado que minha renúncia fora aceita e que eu já não era mais o Presidente da República. Meu governo durara apenas sete meses. O tiro havia saído pela culatra. Abri uma garrafa e bebi pra esquecer.

Entrevista com Cristo Redentor


Regina Paranhos & Fabio Bastos

Entrevista concedida para a repórter Regina Paranhos pela estátua do Cristo Redentor após ter sido escolhido uma das 7 maravilhas do mundo moderno.

RP - Como devo lhe tratar? Senhor, por ser o Cristo Redentor ou senhora, por ser estátua?
CR – Você deve me tratar de senhor e com todo o respeito porque agora que eu sou uma celebridade; sou uma das 7 maravilhas do mundo moderno. E vamos acabar com essa história de estátua porque eu sou um MO NU MEN TO. Estátuas são aquelas que ficam em praças públicas servindo de banheiro pra pombos.

RP — Como e quando o senhor subiu aí em cima do Corcovado?
CR — Já faz tempo que estou aqui. Eu fui concebido por um engenheiro brasileiro lá pelos idos de 1920. Minha construção ficou a cargo de um francês e demorou uns cinco anos pra terminar. Fui inaugurado em 1931 e minhas luzes acesas pelo cientista italiano Marconi diretamente de Nápoles. Pode-se dizer que sou um monumento multinacional. Peso mais de 1000 toneladas bem distribuídas nos meus 30 metros de altura.

RP — É dura a vida de estátua? Essa posição, braços abertos sobre a Guanabara, não cansa?
CR — Essa posição, imortalizada em música do Tom Jobim, é símbolo da cidade e eu tenho que manter de qualquer maneira. São os ossos do ofício, mas eu já estou acostumado. Apesar da minha idade, eu sou duro como uma rocha.

RP — O senhor faz uso de desodorante?
CR — Nunca usei e até hoje ninguém reclamou. O pessoal daqui de baixo do Jardim Botânico até criou um bloco em homenagem ao meu sovaco.

RP — Como é a vista aí de cima?
CR — Eu não me canso de apreciar essa paisagem maravilhosa, não há nada igual no mundo. Nesse tempo que estou aqui assisti muita coisa. Vi construírem a ponte Rio - Niterói, o Maracanã, o Aterro do Flamengo. É bem verdade que vi também algumas coisas ruins como a favelização da cidade. Gosto também de ver turistas chegarem aqui em cima esbaforidos e tirarem fotos de mim. Quando não tem ninguém é chato e pra passar o tempo eu fico contando barcos na baía de Guanabara e as viagens do bondinho do Pão de Açúcar.

RP — É verdade que a sua eleição como uma das sete maravilhas do mundo foi marmelada?
CR — Isso é choro de perdedor, de invejosos. Se você quer saber, eu acho até que fui prejudicado e merecia uma colocação melhor. Perder para a Muralha da China ainda vai, mas ficar atrás de uma cidade de pedra que ninguém nunca ouviu falar é dose. Eu sei que a Estátua da Liberdade foi uma que reclamou, mas, coitada, ela está caidinha, virou até garota propaganda de um shopping na Barra da Tijuca.

RP — Após a eleição, quais são seus planos?
CR — Eu gostaria que fizessem um pedestal rotatório para que eu possa girar e ver toda a cidade. Estou há mais de 70 anos na mesma posição e acordando todo dia com o sol na cara. E tem mais uma coisa, daqui pra frente eu quero ser conhecido como o Monumento do Cristo Maravilha.

Dos quintos do inferno

A chegada do ACM às profundezas do inferno foi apoteótica. Recebido pelo próprio Satanás e ovacionado por centenas de admiradores, e até mesmo por alguns desafetos, foi carregado nos ombros para o auditório local para fazer uma palestra sobre a política brasileira atual. Estavam todos ávidos por notícias frescas do outro mundo. Tão grande foi o interesse que o salão logo ficou lotado, com gente em pé pelos cantos e sentada no chão. ACM tomou lugar na tribuna e se preparou para proferir seu primeiro discurso dos quintos do inferno.
− Senhores e senhoras, caros colegas, correligionários e ilustríssimo doutor Satanás. Agradeço de coração a calorosa recepção que vocês me proporcionaram, mas deve estar havendo algum engano. Eu não pertenço a esse lugar, apesar de não ter nada contra os que aqui estão. Pelo muito que fiz em prol do povo brasileiro eu deveria estar lá em cima, num lugar de honra ao lado do Todo-Poderoso.
Gargalhada geral na platéia e alguém respondeu ao palestrante
− Logo você, o Toninho Malvadeza. Você é o nosso ídolo e estamos te aguardando aqui embaixo há muito tempo. Lá em cima não é lugar pra político brasileiro, muito menos pra Vossa Excelência.
A resposta arrancou risos e aplausos da platéia. Experiente, ACM esperou as palmas sossegarem e passou direto para o assunto da palestra.
− Vocês não têm idéia do que se passa no Brasil do século 21. A corrupção e roubalheira atingiram níveis inimagináveis. Está em todo lugar, na iniciativa privada, no congresso e nos governos federal, estadual e municipal. Nunca houve nada parecido, eu estou estarrecido. E olhem que eu conheço bem o assunto.
Nova onda de gargalhadas e palmas. ACM esperou mais uma vez o auditório se acalmar − A bandalheira tomou conta do país e os três poderes estão desmoralizados. Chegamos finalmente ao fundo do poço − concluiu de maneira enfática e fez uma pausa para observar a reação da platéia.
Geisel foi o primeiro a se manifestar
− Eu avisei pro João Batista que era cedo para a tal abertura, mas ele não me ouviu e deu no que deu.
Todos olharam para o Figueiredo que deu uma resposta lacônica.
− Não tenho nada a ver com isso. Eu já pedi pra vocês me esquecerem.
Tancredo saiu em defesa da abertura política.
− Se eu não tivesse morrido tudo seria diferente. A culpa foi do Ribamar que não teve pulso para reconduzir o país para a democracia. Assim que ele chegar aqui eu vou dizer isso pra ele.
Mario Covas interveio para botar ordem na casa
− Vocês não vão começar de novo com essa lengalenga porque ninguém agüenta mais. Esse assunto é passado e já morreu, como todos aqui. Vamos voltar a ouvir o nobre colega que acabou de chegar.
Aproveitando o momento de pausa, Lacerda levantou o braço e perguntou.
− O que vocês da oposição estão fazendo pra derrubar o governo? No meu tempo esse operário barbudo não teria se criado. Por muito menos eu fiz um presidente meter uma bala na cabeça.
— No peito — retrucou Getúlio sentado entre Jango e Brizola.
Antes que a discussão se alongasse, ACM retomou a palavra.
− Estimado governador Lacerda, folgo em revê-lo depois de tanto tempo. Não existe oposição, estão todos comprometidos e com o rabo preso com o governo. Sozinho eu não pude fazer nada, se ao menos o Luis Eduardo estivesse lá comigo. Mas com o apoio de vocês podemos fazer uma frente ampla e arquitetar o impeachment do presidente.
Novas gargalhadas e ACM notou que tinha falado besteira. Ulysses com sua voz cavernosa saiu em socorro do velho amigo.
− Meu caro Toninho, você ainda não entendeu a situação. Nós não podemos fazer mais nada, somos cartas fora do baralho, perdemos totalmente o poder. Eu sei que no início é difícil aceitar a idéia, mas com o tempo você se acostuma. Agora nós somos almas do outro mundo e a única coisa que podemos fazer é assombrar uns pobres coitados por aí. Outro dia mesmo um grupo saiu daqui pra assistir a abertura do Pan e puxou umas vaias no Maracanã.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Amor sincopado

Não era a famosa garota, mas tinha o mesmo doce balanço e corpo dourado.
Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça...
Assim que a vi passar meu coração bateu mais forte.
Meu coração... bate feliz... quando te vê...
Como era de se esperar ela tinha alguém.
Laranja madura na beira da estrada está bichada Zé, ou tem marimbondo no pé...
Esse alguém era meu amigo!
Estou amando loucamente a namoradinha de um amigo meu...
Tentei esquecê-la, mas não consegui.
Esqueci de tentar te esquecer...
Resolvi ir à luta e procurá-la.
Resolvi te querer por querer...
O encontro aconteceu.
Esse seu olhar, quando encontra o meu...
Apelei para Vinícius.
Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar...
Fiz o pedido.
Se você quer ser minha namorada, ai que linda namorada você poderia ser...
Pela primeira vez na vida me vi apaixonado.
Eu que sempre fui tão inconstante, te juro meu amor, agora é pra valer...
Pra valer, mas nem tanto. Brigamos e voltamos algumas vezes
Começar de novo, e contar comigo...
Aprontei muito com ela.
Tantas você fez que ela cansou, porque você rapaz...
Ela também aprontou comigo.
Igualzinha a você, eu não presto, eu não presto...
Nosso caso chegou ao fim e cada um seguiu seu caminho.
Hoje eu saio na noite vazia, numa boemia sem razão de ser...
Ela virou uma doce lembrança.
Das lembranças que eu tenho na vida, você é a saudade que eu gosto de ter...
Saudade! Foi tudo que restou.
E por falar em saudade... Onde anda você?

Meu Brasil brasileiro

— Por onde o dotô quer ir?
— Pela Niemeyer. Prefiro uma bala perdida do Vidigal que da Rocinha.
— A coisa tá feia mesmo. Outro dia o chefão da polícia foi se meter lá no Alemão e mandaram chumbo em cima dele. O dotô precisava ver a cara de assustado que ele fez.
— Foi bom pra ele sentir na pele o que está acontecendo na cidade. Estamos no meio de uma guerra civil e o governo diz que está tudo sob controle.
— O dotô conhece a tal de Suíça?
— Por que você está perguntando isso?
— Porque o Lula diz que lá ninguém fala mal do governo. Que tá todo mundo satisfeito.
— É porque lá os políticos são honestos. O presidente do senado não tem uma amante e uma filha sustentadas por uma empreiteira.
— Sendo político fica fácil, não é mesmo dotô? Eu queria ver ele ter duas famílias sendo taxista.
— É por essas e outras que a gente reclama. O pior é que não adianta nada, eles estão roubando cada vez mais e ninguém vai preso.
— Diz que no Japão quando um político é pego roubando ele se suicida.
— É verdade, mas lá é outra cultura. Se essa moda pega aqui eles iam arranjar alguém para se suicidar por eles. Iam terceirizar o suicídio.
— Mas aqui teve o Getúlio que se suicidou.
— Isso foi há mais de cinqüenta anos. Hoje eles perderam a vergonha na cara. São pegos com a mão na massa e negam tudo, inventam as maiores mentiras. Não dá mais pra acreditar em ninguém. Até o irmão do Lula está envolvido em maracutaia.
— O Lula chamou o irmão de lambari e disse que ele não fez nada de errado. Diz que ele é bobo.
— E você acredita nisso? Acha mesmo que ele é bobo?
— Bobo sou eu, dotô, que ralo o dia inteiro em cima desse táxi pra ganhar uma merreca. Tem dia que não dá nem pra pagar a diária.
— Enquanto isso lá em Brasília a roubalheira corre solta.
— A culpa disso tudo é do Lula. O negócio dele é festa, ele nunca tá aqui, tá sempre viajando. Um dia tá no jogo do Brasil na Inglaterra, outro tá na Índia e por aí afora. Ele só não fica em Brasília. O dotô sabe como que é, quando o gato não tá em casa, os ratos fazem a festa...
— Você queria o quê? O Lula nunca foi de trabalho, sempre viveu encostado em sindicatos e partidos políticos. E o curioso é que ele é o símbolo do partido dos trabalhadores. Mas ele agrada ao povão porque foi reeleito. Você é um que deve ter votado nele.
— Votei mesmo. É que ele fala a língua da gente e diz que as coisas vão melhorar.
— E melhora alguma coisa? Só se for pro lambari.
— Fazer o que, né dotô? Agora, como diz a ministra, relaxa e goza.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Turismo de cabelos brancos

Embarquei numa excursão de ônibus para as cidades históricas de Minas consciente de que estava embarcando também na terceira idade. Sempre gostei de viajar por conta própria. Em carros alugados e com um mapa na mão desbravei estradas desconhecidas por esse mundo afora. É verdade que me perdi algumas vezes e passei alguns sufocos, mas no fim das viagens esses contratempos se tornavam agradáveis recordações. Dessa vez foi diferente, por insistência de minha mulher, entramos numa excursão com tudo previamente organizado: hotéis, horários e itinerários.
Dentro do ônibus uma nuvem de cabelos brancos pairava por cima das poltronas. Me senti jovem no esplendor dos meus 60 anos. Depois da cerimônia de apresentações e de um lanchinho servido pelas solícitas guias seguimos quietos até a primeira parada — Quinze minutos para vocês esticarem as pernas e irem ao banheiro. Somente para o número um, deixem o número dois para o hotel. Aproveitem para trocar os fraldões geriátricos — ordenou uma delas com firmeza.
Obediente que sou, preparei-me para saltar do ônibus, mas não foi fácil. Um senhor com dificuldade para se locomover desceu apoiado numa bengala provocando enorme congestionamento atrás dele. Perdemos preciosos minutos e pensei em reivindicar uma prorrogação, mas desisti. Assim que consegui sair fui ao banheiro e mijei mesmo sem vontade para não ser tachado de rebelde; uma senhora já havia me chamado a atenção ao me ver sem crachá. De volta ao ônibus peguei um cigarro e levei-o à boca. Fui fuzilado por dezenas de olhares recriminadores, inclusive o da minha mulher. Em sinal de protesto decidi manter o cigarro apagado na boca.
Tumulto na chegada a Tiradentes, nosso primeiro pouso. Um ônibus com turistas franceses chegou junto com o nosso, provocando enorme confusão de malas e pessoas na portaria do hotel. Depois de muitas reclamações e bagagens trocadas saímos em grupo para conhecer a cidade. Ciceroneados por um guia local o cortejo seguiu a pé pelas pitorescas ruas e ladeiras de paralelepípedo. Um bando de tartarugas mancas teria ido mais rápido.
De volta ao hotel nossa guia sargentona informou a programação para a noite e dia seguinte — Hoje vocês têm noite livre para experimentarem a culinária mineira e fazerem comprinhas no comércio local. Amanhã alvorada às seis e meia. Malas na porta do quarto e todos no restaurante as sete em ponto para tomarmos o café da manhã — com os números um e dois já resolvidos, ela pensou, mas não disse.
Brilhante plano, não fosse também o dos franceses. O resultado foi novo tumulto internacional na manhã seguinte. Oitenta pessoas se digladiando ao redor da mesa do bufê por um pedaço de pão, um bolinho de fubá e uma xícara de café com leite. O pão de queijo nem chegava à mesa, o garçom era assaltado no caminho e voltava para a cozinha com a bandeja vazia. Com sacrifício consegui uma xícara de café e um pedaço de queijo de minas que surrupiei do prato de uma francesa distraída. Atrasados e mal alimentados seguimos em frente.
O resto da viagem foi uma sucessão de entra e sai de ônibus e igrejas, alvoradas com o galo cantando, malas na porta com hora marcada e caminhadas a passo de cágado. Num dos hotéis uma senhora afobada despachou a mala antes de tirar a roupa que ia vestir. Passou o dia de roupão até chegarmos no hotel seguinte. E tome de comida mineira e compras de lembrançinhas inúteis. Levei mais dois cartões amarelos da fiscal de crachá. Houve troca de remédios e receitas culinárias. Ouvi relatos detalhados de cirurgias, com direito a exibição de cicatrizes. Tirei muitas fotos com o grupo na porta de igrejas e vi dezenas de retratos de filhos, netos e bisnetos. Na viagem de volta tivemos jogos, sorteio de brindes, amigo oculto e karaokê a bordo. Fomos obrigados a fazer duas paradas não programadas por conta dos abusos da culinária mineira. A guia anunciou que breve haverá nova excursão, provavelmente com o mesmo roteiro. Graças ao Alzheimer em uma semana todos já terão esquecido o que viram. Solicitado a preencher nome, endereço e telefone numa lista, informei tudo errado.
Sorria, você está na Barra! Nunca fiquei tão contente em voltar para casa. Prometendo participar em outras excursões do grupo me despedi e desembarquei do ônibus e da terceira idade.

Santo de casa também faz milagre

— Ô garçom, traz mais uma rodada de chope pra gente fazer um brinde ao primeiro santo brasileiro.
— Santo brasileiro? Isso não existe! É folclore igual ao saci pererê e a mula-sem-cabeça.
— Não existia, meu caro, mas agora existe. O papa acabou de canonizar Frei Galvão, o nosso santo tupiniquim. Habemus santum! Entramos no primeiro mundo.
— Você quer dizer que um papa nazista canonizou um santo brasileiro? Esse mundo está mesmo perdido. O que foi que esse Frei Galvão fez pra virar santo?
— Milagres. Para uma pessoa virar santo tem que fazer milagres.
— E qual foi o milagre que ele fez? Foi ele que salvou o Flamengo de ser rebaixado no brasileirão de 2005?
— Não, ele inventou as pílulas milagrosas.
— Ah bom! Se ele inventou o viagra, merece ser santo.
— Que viagra que nada. Ele inventou umas pílulas recheadas com jaculatórias.
— Jaculatórias! Argh! Que nojo!
— Quanta ignorância, quanta falta de cultura! Não é nada disso que você está pensando; jaculatórias são orações curtas. As pílulas têm um papelzinho dentro com as orações do frei e curam os doentes.
— Curam mesmo ou isso é mais uma armação da igreja? Eu não confio nesses padrecos. Outro dia mesmo teve um que roubou umas gravatas lá nos Estados Unidos e foi em cana.
— Não era padre, era rabino. Mas isso não tem nada que ver com Frei Galvão. Os milagres deles foram estudados por especialistas e comprovados cientificamente.
— Eu queria ver ele fazer um milagre e meter na cadeia esses juízes e políticos corruptos.
— Aí já é pedir demais. Essa nem Jesus Cristo consegue.
— E como é que a gente faz pra arranjar uns milagres com esse santo?
— É só você tomar as pílulas dele.
— Aquelas com jaculatórias? Tô fora, prefiro ficar sem os milagres.
— Larga de ser burro, ô cara, eu já disse que jaculatórias são orações.
— Com tantos Valérios, Delubios, Malufes e Euricos a solta por aí, estava mesmo na hora de aparecerem uns santos pra contrabalançar.
— Frei Galvão foi o primeiro, tem outros na fila.
— O Lula é um candidato. Mesmo com toda aquela roubalheira e escândalos em Brasília ele foi reeleito com mais de 50 milhões de votos. Vai dizer que não foi milagre?
— Pode ser. Só que o Lula não quer ser santo. Ele já se acha Deus.
—Tim! Tim! Viva São Frei Galvão!

Dura lex sed lex

Como dever de casa a professora mandou seus alunos lerem as principais notícias do jornal e prepararem dúvidas e comentários. Eles precisam saber o que se passa no país e no mundo. Na aula seguinte as perguntas pipocavam de todos os lados como balas perdidas.
— Professora, não é a polícia que tem que perseguir os bandidos?
— É. Por que você está perguntando isso?
— Porque o jornal diz que os bandidos é que estão perseguindo a polícia.
É a nossa triste realidade, mas não posso admitir isso para os alunos. Nós educadores temos o dever de manter a fé dos jovens nas instituições.
— Deve ter sido um truque da polícia pra armar uma cilada e prender os bandidos.
— Professora, se o jogo do bicho é proibido, por que a polícia não prende aquele homem que fica lá em frente à padaria? Ele fica sentado numa cadeira na calçada recebendo apostas no jogo do bicho.
— Vai ver que a polícia não sabe o que ele está fazendo.
Será que ele vai engolir essa?
— Se não sabe é muito otária, todo mundo sabe que ali é o ponto do bicho. A minha empregada vai todo dia lá fazer uma fezinha com ele.
Não engoliu.
— É uma questão social, ele não tem emprego e com o jogo do bicho ele ganha um dinheirinho pra levar pra casa.
— Professora, por que os juízes receberam dinheiro dos bicheiros?
— Foram só alguns juízes corruptos, mas eles já foram presos.
— Eles foram presos, mas logo depois foram soltos.
Alguém já disse que o Brasil não é um país sério.
— Eles vão ser julgados e se forem condenados vão ser presos de novo.
— Mas se eles forem julgados por outros juízes eles não vão ser condenados.
— Vão sim, a justiça vai ser feita.
Assim espero!
— Professora, por que os juízes foram soltos e os bicheiros ficaram presos?
— Os juízes foram soltos por que têm privilégios. Eles vão esperar o julgamento em liberdade.
— Por que eles têm privilégios e os bicheiros não? A senhora não explicou que a lei é igual pra todo mundo?
Esses garotos não são fáceis, estão me deixando na maior saia justa.
— Porque existe uma lei que diz que as pessoas que estudam e têm curso superior têm privilégios. É para incentivar as pessoas a estudarem.
— Quer dizer que tem uma lei pra quem estudou e é rico e outra pra quem é analfabeto e pobre?
A minha vontade é dizer que é isso mesmo, mas não posso.
— Nada disso. As leis são as mesmas para todos, mas têm particularidades.
— Professora, quem é que faz as leis? São os juízes?
— Não, os juízes julgam as pessoas baseados nas leis que são feitas pelos políticos do poder Legislativo. As leis são feitas para defender os interesses do povo.
— Mas os políticos não são corruptos? Não foram eles que receberam dinheiro do mensalão.
Quem mandou ser professora?E ainda mais pra ganhar uma merreca.
— Nem todo político é corrupto. Os que receberam dinheiro do mensalão foram cassados e estão respondendo processos criminais.
— Nem todos, professora, muitos foram absolvidos e saíram rindo. Teve uma deputada que até dançou de alegria. Eu vi na televisão.
Está cada vez mais difícil preservar a honra das nossas instituições. Ainda bem que falta pouco tempo para eu me aposentar.

terça-feira, 1 de maio de 2007

De alquimista a cronista

Nascido e criado num Rio de Janeiro que não existe mais. A infância e a adolescência passou entre a educação num colégio jesuíta e o lazer com colegas. Peladeiro convicto atuou tanto nas areias da praia como nas ruas e campos de futebol soçaite. Se talento lhe faltava, disposição tinha de sobra. Sofreu e sorriu com o seu Flamengo e assistiu ao milésimo gol do Pelé no Maracanã. Influenciado pelo pai, um pioneiro em caça submarina no Brasil, tomou gosto pelo mundo submarino. Não foi surfista, na sua época só se pegava jacaré. Andou de bonde e lotação até ter seu primeiro carro. Namorou e dançou ao som dos acordes da bossa nova e das guitarras dos Beatles. Casou-se com uma legítima garota de Ipanema, casamento que perdura até hoje e que gerou três lindas filhas.
Na hora de escolher uma profissão se aventurou pelos mistérios da alquimia. Seu primeiro emprego foi numa fábrica onde ficou muitos anos. Aos 40 deu uma guinada na carreira, trocou a área industrial pela comercial. Viajou por esse Brasil e pelo mundo afora, ampliou seus horizontes. Participou de reuniões, congressos ou simplesmente viajou de férias. Conheceu muitos lugares, fez novas amizades e colecionou momentos que se transformaram em doces recordações.
Em determinado momento as viagens de trabalho, a princípio prazerosas, se tornaram enfadonhas. Passava longas e solitárias horas em hotéis, aeroportos e aviões. Precisava arranjar algo para se distrair e não se tornar mais um alcoólatra em trânsito, como tantos que conheceu em suas andanças pelo mundo. Descobriu que escrever passava o tempo e encontrou a distração que procurava.
No início foram memórias, transferia para o papel momentos de sua existência. Numa segunda etapa vieram as crônicas, comentava e dava opinião sobre notícias da época. Resolveu ir além e, baseado num fato real e na sua imaginação, escreveu um conto. Foi o primeiro de muitos perpetuados mais tarde em livros. Tomou gosto pela arte de escrever e se viciou. Para se aperfeiçoar voltou a ler seus autores prediletos e freqüentou cursos e oficinas literárias onde aprendeu e fez preciosas amizades.
Sessentão e aposentado dedica-se aos netos, que para sua alegria não param de chegar a esse mundo. Pode ser encontrado pela manhã pedalando na ciclovia da Barra e à noite em mesas de pôquer e sinuca. Nas horas vagas entrega-se ao vício de escrever.

Viagem pelo mundo lexical

Li no jornal que um número expressivo de brasileiros sabe ler, mas não sabe interpretar o que lê. Entendem o significado de algumas palavras e frases curtas, mas não de um texto um pouco mais longo e complexo. São semi-analfabetos. Fechei o jornal e os olhos e embarquei numa viagem pelo mundo lexical.
A primeira idéia que me ocorreu foi que uma palavra isolada perde sua força. É como um soldado no campo de batalha que precisa do apoio de seus companheiros para lutar e sobreviver. Cada palavra-soldado tem sua função específica na tropa lingüística, seja substantivo, adjetivo, verbo, pronome ou outra especialidade. Elas se completam e formam frases, que alinhadas compõe parágrafos que dão vida ao texto.
Uma língua seria então um repertório destas palavras e cada idioma teria o seu. Sob esse aspecto traduzir seria uma tarefa fácil, bastaria substituir palavras de um idioma para o outro e montar frases. É o que fazem os programas de tradução instantânea com resultados desastrosos. Traduzir é mais do que substituir palavras, é transformar, adaptar, improvisar. Traduttore, traditore, diz o ditado italiano. Traduzir é trair no sentido que o texto traduzido é infiel ao original.
Todo língua possui suas características, peculiaridades e ambigüidades. Em português dizemos que vamos botar a calça e calçar a bota, quando mais lógico seria calçarmos a calça e botarmos a bota. Em idiomas diferentes as palavras nem sempre significam o que aparentam. Num país de língua inglesa ao se deparar com uma placa de PUSH numa porta, não puxe, empurre; se for PULL, não pule, puxe, e no caso de EXIT, não hesite, saia. A palavra saia, que acabei de usar é outro exemplo, isolada e fora do contexto não se sabe se é a peça do vestuário feminino ou o tempo verbal.
A informática, o economês, a internet e outras áreas tecnológicas estão sempre lançando palavras novas na mídia. Software, marketing e performance são exemplos de algumas já aceitas e incorporadas ao nosso vernáculo. Outras, como deletar, estresse, know how e impeachment, ainda estão sendo digeridas. Difíceis de engolir são as aportuguesadas fidebeque, leiaute e estartar. É a globalização introduzindo uma nova língua universal para facilitar a comunicação entre os povos, o que o esperanto tentou, mas não conseguiu.
Nesse ponto da viagem compreendi melhor as dificuldades dos semi-analfabetos tendo que conviver com todos esses neologismos e percalços lingüísticos. Abri os olhos e retomei a leitura do jornal.

O que é de gosto regala a vida

Alfredo passou mal no escritório chegando a desmaiar. Chamada às pressas para atendê-lo, sua filha única, médica, já o encontrou bem disposto e trabalhando normalmente — Foi uma bobagem, um mal estar passageiro — disse ele enquanto ela tirava sua pressão.
No dia seguinte ela o levou, sob protestos, para fazer um check-up no hospital em que trabalhava. Os resultados dos exames não acusaram nada de anormal — É excesso de trabalho, papai. Você precisa se distrair mais, relaxar, curtir a vida. Há quanto tempo você não tira umas férias?
Alfredo não respondeu, não teve coragem. As últimas férias haviam sido quando a levou para a Disney no seu aniversário de dez anos. Sabia que a filha tinha razão, ele se sentia mesmo estafado, mas relutava em se afastar do trabalho.
Na saída do hospital avistaram um outdoor de uma agência de turismo com a frase - Não leve tão a sério a sua existência. Você não vai sair dela com vida.
— Papai, essa frase foi feita sob medida pra você que vai acabar se matando de tanto trabalhar. Vai passar pela vida sem viver. Por que você e a mamãe não viajam para a Europa numa excursão? Aposto que vocês iriam adorar.
A frase e os argumentos da filha foram decisivos para ele tomar a decisão — Tudo bem, minha filha, eu tiro umas férias, mas nem pensar em Europa e viajar de avião. Eu vou é para São Lourenço e de carro.
— São Lourenço! Que falta de imaginação! Mas pensando bem é até melhor. Lá pelo menos você vai descansar e se alimentar bem.
No domingo Alfredo e a mulher seguiram para uma semana de férias em São Lourenço. Hospedaram-se no Hotel Brasil, o mesmo da lua de mel há trinta anos. O tempo havia passado e o hotel se modernizado, mas o programa era o mesmo. Manhã no parque das águas sulfurosas e magnesianas, foto no caramanchão do lago, miolo de pão para pombos e patos, pedalinho, charrete e um bom livro para ler.
Almoço seguido de cochilo na espreguiçadeira. À tardinha passeio a pé pelo comércio para comprar lembranças e bugigangas. Uma partida de biriba antes do jantar e depois cafezinho e chá na varanda. Os homens discutem política e futebol enquanto as mulheres assistem à novela na sala de televisão. Pouca coisa mudou dos tempos da lua de mel, só os momentos embaixo dos lençóis que não eram mais os mesmos.
O primeiro dia foi interessante, o segundo entediante e o terceiro angustiante. Alfredo sentia-se um inútil longe de seus relatórios, planilhas e contratos. A sensação era de um viciado tentando largar a droga. Pensou em ligar para o escritório e saber das novidades, mas conteve-se, estava ali para curtir as férias como havia prometido para a filha. Passou o resto da semana amargurado esperando pelo domingo.
Na segunda-feira voltou ansioso ao escritório. Deu um bom dia seco para os colegas, trancou-se na sala e mergulhou de cabeça na papelada. Não parou nem para almoçar. Como sempre foi o último a sair levando na pasta um relatório para terminar em casa. Precisava recuperar a semana perdida. Férias, nunca mais.