segunda-feira, 19 de julho de 2010

Noticiário político faz mal à saúde


Agora que a Copa acabou e ficamos livres do Dunga, está na hora de nos prepararmos para o outro evento de 2010, as eleições. O que significa que nos defrontaremos novamente com a dúvida cruel: em quem votar? Tenho ouvido muita gente dizer por aí que vai votar em branco ou anular o voto, que os políticos são todos uns canalhas e não merecem nossa confiança. Nada contra os que assim decidirem, mas para mim não funciona. Sou de uma geração que ficou sem votar por um longo período, meu título de eleitor ficou enfurnado no fundo de uma gaveta por muitos anos. Por isso não vou desperdiçar a oportunidade e tenho que escolher aqueles que merecerão o meu voto.

Antigamente era mais fácil decidir, o candidato era de direita ou de esquerda, do bem ou do mal, dependendo do lado em que você estava. Hoje em dia não existe mais essa divisão simplista e radical que facilitava a decisão, agora são todos do mal, independente do lado em que estão. Eles só querem o seu voto, estão se lixando para a sua opinião. Você coloca os seus votos na urna para depois de eleitos eles colocarem o seu dinheiro nas meias e nas cuecas. Os partidos políticos abandonaram os ideais e se transformaram em quadrilhas especializadas em assaltar os cofres públicos.

A primeira sugestão que dou para quem quer escolher um candidato é parar de ler e assistir matérias sobre política. Fique afastado principalmente do horário político, desligue a televisão ou coloque no mute enquanto espera a novela. Vai por mim que é mais seguro; é melhor você votar mal informado do que iludido. Você pode ficar influenciado pela perigosa lábia dos nossos parlamentares que são muito persuasivos e poderão enganá-lo facilmente. Se você é daqueles que não é fácil de enganar, vai ficar com tanta raiva que corre o risco de fazer uma úlcera. O Ministério da Saúde devia advertir aos eleitores – Noticiário político faz mal à saúde.

Cuidado em especial com o nosso presidente. Quanto mais escândalos surgem no seu governo, mais aumenta a sua popularidade. Ele se alia com antigos desafetos e com a banda podre da política e nada lhe acontece. É inacreditável. Com seus discursos verborrágicos cheios de metáforas e erros de concordância ele é capaz de vender gelo para esquimó, quanto mais nos empurrar goela abaixo a sua insossa candidata. O homem é um gênio da comunicação e seu poder de enrolação ultrapassou nossas fronteiras e conquistou o mundo. Ele foi eleito estadista global e nós tivemos que engolir mais esta. Fique longe dele.

Nada de votar em ex-jogadores de futebol, artistas e figuras populares como o fulaninho do posto ou o pipoqueiro da pracinha. A história nos tem mostrado que eles são péssimos representantes e querem se eleger apenas para se locupletar com o dinheiro público. Em pastores de igrejas evangélicas, então, nem pensar. Não satisfeitos em sugar o dinheiro dos incautos nos cultos eles também querem mamar nas tetas do governo. Não contribua para alimentá-los, eles que suem a camisa para se sustentar.

Existe uma campanha para renovar e não reeleger nenhum político atual, votar em candidatos novos. Tenho minhas dúvidas quanto à eficácia desta estratégia. Os que já estão nos cargos são ratos gordos que roubam apenas para se manterem, enquanto os novos ainda vão ter que roubar para enriquecerem. O prejuízo aos nossos bolsos pode ser ainda maior

Se você tiver algum amigo ou parente candidato, vote nele, mesmo sabendo que ele não é flor que se cheire. Calhorda por calhorda, esse pelo menos é seu conhecido e você pode ter a chance de lhe dizer umas verdades cara a cara.

Se esses conselhos o ajudaram a escolher seu candidato, meus parabéns, você é uma pessoa de sorte. Eu continuo sem a menor idéia em quem votar.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

O El Cid de Los Angeles


Assim como El Cid que lutou morto a última batalha, o pop star Michael Jackson também continua atuando enquanto não decidem o que fazer com seus despojos. O show não pode parar e seu corpo insepulto atrai multidões a Los Angeles e garante o faturamento de sua família, de empresários e do comércio local. É o turismo fúnebre. Enquanto seus potenciais herdeiros brigam pela herança, o seu velório virou um mega espetáculo num estádio onde o principal astro compareceria embalsamado, com a aparência não muito diferente das suas últimas performances. Há quem diga que ele já estava morto há bastante tempo e só agora decidiram divulgar.
Entretanto, o velório do astro não devia se limitar à cidade de Los Angeles, o mundo inteiro tem o direito de ver e se despedir do rei do pop. Seus empresários não deviam cancelar a turnê mundial que estava programada, basta colocar o corpo num avião, e nesse caso pode ser um Airbus uma vez que o principal passageiro já embarcaria morto, e sair mundo afora pelos lugares por onde ele passou, do Dona Marta ao Picadilly Circus.
Uma outra hipótese seria não enterrá-lo nunca, deixá-lo embalsamado e transformá-lo numa nova atração da Disney, ou de um parque temático a ser criado no sítio Neverland. Com os recursos tecnológicos e alguns chips no corpo ele poderia até mesmo dar o famoso passo moonwalk. Poderia se dizer então com segurança que, assim como seu sogro Elvis, Michael Jackson não morreu.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Os óculos do poeta


Sou um caçador de notícias que possam render uma boa crônica e nesta semana me chamou a atenção o roubo dos óculos da estátua do Carlos Drummond de Andrade. Pelo que li no jornal foi a terceira vez que roubaram, basta reporem a peça que alguém vai lá e a surrupia.
O que não consigo entender é para que servem uns óculos de estátua? Talvez seja um fã roubando para ter uma recordação do ídolo, ou um ato de puro vandalismo, mas por que cismaram justamente com os óculos do poeta?
Abro aqui um parágrafo para lucubrar um pouco sobre a palavra óculos. Apesar de se tratar de um objeto único o vocábulo se refere a um par de óculos, ou simplificando óculos, e por isso a palavra pede o plural. Esclarecida essa curiosidade lingüística, fecho o parágrafo e volto para Drummond e seu infortúnio.
Como se não bastasse servir de banheiro para pombos e ficar exposto às intempéries, sem óculos nosso poeta fica privado de enxergar o que se passa ao seu redor. É mais uma maldade que se faz com tão ilustre personagem. A primeira foi colocar sua estátua virada para os edifícios. Tenho certeza que se pudesse escolher esse mineiro de Itabira iria preferir se sentar apreciando o marzão e mulheres de biquíni na areia. Encontraria com mais facilidade inspiração para seus poemas e crônicas.
Mas voltando à pergunta inicial: por que roubaram os óculos do poeta? Quem rouba alguma coisa o faz com uma finalidade, mas nesse caso não consigo entender o motivo. Houve uma época em que foi moda roubar escudos de carros. Não havia um fusca na cidade com o escudo com o logotipo da fábrica. Os jovens roubavam para usar como enfeite nos fichários. Não deixava de ser um ato ilegal e deplorável, mas com uma finalidade. Já os óculos de bronze de uma estátua não servem para nada.
Se ao menos tivessem o poder de transferir a quem os usasse a visão do mundo e a genialidade do poeta o roubo teria uma justificativa. O privilegiado que usasse os óculos poderia dar continuidade à obra do artista.
Só me resta dar uma sugestão ao ladrão. Que guarde os óculos com cuidado para colocar na estátua do presidente Lula, que certamente algum dia vai ter uma, se é que já não tem. Pode ser que com os óculos do Drummond a estátua enxergue o que o ser humano não consegue enxergar.

Créu na praça


— Ouve só essa: a Holanda vai liberar sexo nas praças públicas.
— Como é que é? Sexo mesmo, transar pra valer?
— É o que tá escrito aqui no jornal.
— Quer dizer que o cara escolhe uma mulher numa daquelas vitrines e vai experimentar na praça. Se não gostar volta pra trocar por outra.
— É isso aí. Ou ele pode pegar uma mulher num barzinho, pedir um baseado pra viagem e ir desfrutar a erva e a mulher num parque das redondezas. Tudo dentro da lei.
— Isso é que é país avançado, não é aquela caretice dos Estados Unidos que derrubou o governador de Nova York só porque saiu com uma garota de programa. E olha que ele nem pagou com cartão corporativo.
— Mas eles vão se danar porque o vice que assumiu é cego. Não vai ver nada, igual ao nosso presidente.
— A Holanda sempre esteve na vanguarda. A nossa ministra de Sexo e Turismo devia dar um giro por lá e tirar umas idéias em vez de ficar mandando a gente relaxar e gozar.
— Essa de transar em praça pública é uma boa, ao ar livre, com flores e passarinhos cantando em volta. Dá pra fazer sexo e ainda pegar um bronze. É muito mais saudável do que em motéis.
— No inverno é que vai ser dureza. Lá faz um frio terrível.
— Eles dão um jeito e botam aqueles casacões de pele. Vão parecer dois ursos se acasalando na neve.
— Será que qualquer um pode fazer sexo nas praças, ou vai ter que ter licença?
— Talvez tenha que tirar uma carteirinha. O problema vai ser onde pendurar a carteirinha quando o casal estiver em atividade.
— E pode ser em qualquer lugar da praça?
— Aqui diz que tem ser longe das crianças. O playground tem que ficar de um lado e o fuckground do outro, cada qual com seu trepa-trepa.
— O que mais diz a notícia?
— Diz também que os policiais não podem interferir, a menos que o casal esteja perturbando a ordem pública.
— O que será perturbar a ordem pública numa trepada?
— Sei lá. Vai ver que só pode fazer papai-e-mamãe e não vale gemer alto.
— Deve ser por aí. Será que pode sexo grupal?
— Uma suruba ao ar livre, você quer dizer.
— Isso mesmo. Uma festinha de final de ano, de aniversário, de formatura.
— Por que não? Desde que não perturbem a tal ordem pública e no final deixem tudo limpo. Não pode é se lavar no laguinho da praça e deixar preservativos espalhados pelo chão.
— E o sexo vai ser liberado em qualquer praça?
— Acho que sim. Eles só vão ter que alterar as placas dos gramados. Vão ter que colocar – É proibido pisar e trepar na grama.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Verão carioca


No calendário o seu início é lá pelos meados de dezembro, mas é em janeiro que a cidade entra pra valer no clima de verão. É a estação com a cara do Rio. Praias cheias de crianças, mamães, babás, velhos, turistas, surfistas, vendedores ambulantes, catadores de latas, rapazes sarados e moças de corpos dourados. Para aplacar a sede e espantar o calor haja água de coco, mate gelado, refrigerante, refresco e sorvete. Pouca roupa e muito protetor solar. Mulheres exibem corpos bronzeados em vestidos leves deixando-as ainda mais sensuais. A minissaia, inventada na Inglaterra, é o uniforme oficial do verão carioca. Homens suados vagam pelas ruas com paletós nos ombros em busca de um papo amigo e de um chope gelado.
O dia insiste em não terminar e dar lugar à noite. É época de aplaudir o pôr do sol no mar, um privilégio carioca. O calor não dá tréguas. Sol escaldante e asfalto amolecendo. Termômetros beirando a casa dos quarenta. Ar condicionado a pleno vapor gotejando nas calçadas e nos pedestres. É cruel com quem tem que trabalhar, a cidade deveria entrar em recesso de verão.
Fevereiro é o começo oficial do ano letivo, embora aulas pra valer só em março. É também o mês do carnaval, o grande momento do verão. Banda de bairro, bloco de sujo e baile gay. Travestis e mulheres se misturam e se confundem num festival de silicone e sacanagem. Sapucaí, fantasias, plumas, baterias, alegorias e muita mulher pelada. Mudam os enredos, mas a mesmice continua. Genitália desnuda já não impressiona mais. Talvez uma cópula ao vivo faça sucesso: preliminares na concentração, evolução na avenida e apoteose na praça do mesmo nome. Sempre mantendo a harmonia e sem atravessar o samba para não perder pontos.
Em março os turistas já se foram e a cidade entra em ritmo de trabalho. Mas as praias continuam cheias com os termômetros ainda em alta. É o carioca que se despede dos últimos momentos da estação. O horário de verão já terminou, a noite expulsou o dia e retomou seu lugar no firmamento. Nuvens carregadas e ameaçadoras se formam no horizonte. Temporais desabam nos fins de tarde alagando ruas e transtornando a vida da cidade. São as águas de março fechando o verão e a crônica.

domingo, 23 de dezembro de 2007

É fim de ano

Varandas enfeitadas e iluminadas anunciam a chegada do natal. Shoppings lotados de gente feliz carregando sacolas de compras. Papais Noel de aluguel atraem fregueses nas portas das lojas. Crianças escolhem nas vitrines os presentes mais caros para desespero dos pais. Listas do carteiro, lixeiro, porteiro, jornaleiro e até do entregador de pizza. Em boa hora chega o décimo terceiro e ajuda a bancar a festa.
Bares e restaurantes repletos de pessoas confraternizando. Amigo oculto e troca de CDs pirata, agendas, águas de colônia de farmácia e inutilidades para o lar. Hora de abrir presentes e corações para reatar velhas amizades, de renovar planos para o ano que vai iniciar, mesmo sabendo que dificilmente irão se realizar. Planos de voltar a estudar, pagar as dívidas, poupar dinheiro, viajar, trocar de carro e fazer aquela plástica a muito sonhada.
Noite Feliz. Casa cheia de gente com roupa nova. Árvore de natal piscando e crianças correndo em volta ansiosas para abrir os presentes. Parentes distantes trocam informações sobre quem nasceu e quem morreu; quem casou e quem se separou. Mesa farta com fila para se servir de peru, pernil, presunto, bacalhau e farofa. Faz calor no natal tropical, uma cervejinha gelada cai melhor do que um tinto encorpado. A tia velha e gorda se empapuça de pernil, rabanadas, nozes e castanhas. Que se dane a dieta, pode ser seu último natal. Algazarra na distribuição de presentes. Fim de festa com papel de presente espalhado pelo chão e crianças dormindo nos colos dos pais.
Uma semana de trégua e a festa recomeça. Especial do Roberto Carlos, reveillon do Faustão e flores para Iemanjá. Queima de fogos em Copacabana e árvore flutuante na Lagoa. Meia noite. Espocam champanhes e planos para o ano novo. Bebedeira geral. Gente de branco pelas ruas se abraçando e saudando o ano que acabou de começar.
Ressaca logo no primeiro dia. Aos poucos o sonho se desfaz e a vida volta ao normal. IPTU, IPVA, cartão de crédito para pagar sem o décimo terceiro para ajudar. No ano que vem tudo vai mudar.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

O porre que mudou a história do Brasil


Brasília, Palácio do Planalto, Gabinete da Presidência.
24 de agosto de 1961, seis da tarde — Abri uma garrafa e me servi uma dose generosa. Estavam todos contra mim, as forças armadas, os políticos da oposição e até os do meu próprio partido. Nem parecia que eu havia sido eleito presidente a menos de um ano e varrido com minha vassoura aquele marechal arrogante. Eles esqueceram rápido. O presidente americano havia apresentado um protesto veemente quando reatei relações comerciais com a União Soviética, China e Cuba. Eu queria ter visto a cara dele quando descobriu que também condecorei o Che Guevara. Por aqui também não pegou bem a condecoração, meus ministros militares não gostaram nem um pouco.
Acabou o gelo, servi uma dose caubói, dei um gole e despachei uma dúzia de bilhetinhos para meus assessores. Implicavam com tudo que eu fazia, reclamavam das proibições das brigas de galo, corridas de cavalo no meio da semana, lança-perfume e biquíni. Reclamavam até da roupa que eu vestia. Diziam que eu devia ter me ocupado com coisas mais importantes. Eles não sabiam o que era uma administração moderna e eficiente.
Dei mais um gole e a bebida desceu proporcionando uma agradável sensação. Até aquele jornalistazinho cretino que foi eleito governador da Guanabara se virou contra mim e veio falar em complô. Precisava dar uma resposta a altura para cortar as asas dele e colocá-lo no seu lugar. Se ele pensava que ia fazer comigo o que fez com o Getulio estava muito enganado. Decidi fazer um pronunciamento à nação pra mostrar com quem ele estava se metendo.
Reabasteci o copo e me preparei pra escrever o manifesto. Tinha que ser algo firme e contundente, algo que calasse a boca dele e mostrasse quem manda no país. Decidi transformar o manifesto numa carta de renúncia. Era isso! Ia dar um susto na nação ameaçando renunciar pra mostrar que eles precisavam mais de mim do que eu deles.
A idéia me empolgou, bebi num só gole e tornei a encher o copo. As palavras se multiplicavam no papel enquanto o copo se esvaziava. Já passava de meia-noite quando terminei a carta e a garrafa. Uma carta que iria sacudir o país. Fiquei cansado, mas satisfeito. Sem condições para ir até meu quarto dormi como estava no sofá do gabinete.
25 de agosto de 1961, seis da manhã — Acordei numa tremenda ressaca com a cabeça pesada e a boca amarga. Encontrei em cima da mesa a carta renúncia ao lado da garrafa vazia. Lembrei-me vagamente do que se passara na noite passada. Meu primeiro impulso foi rasgá-la, mas resolvi ler o que havia escrito. Fiquei sem saber quem eram as tais forças ocultas que mencionei, mas gostei do mistério que dava um toque de realismo ao pedido. Decidi enviar a carta como estava. Coloquei-a num envelope, lacrei-o e deixei-o na mesa da minha secretária com um bilhetinho para encaminhá-lo ao presidente do congresso às dez da manhã. Segui para meus aposentos e mandei Eloá preparar as malas porque íamos viajar.
Onze da manhã – No vôo para casa imaginei o impacto que a carta estaria causando e a cena do presidente do congresso reunido com os ministros militares discutindo meu pedido de renúncia. Eles nunca iriam aceitar e entregar o país para o meu vice. Ruim comigo, pior com ele e eles sabiam disso. Já instalado em meu apartamento em São Paulo aguardei a ligação de Brasília me implorando para voltar. Eu iria sair fortalecido daquela crise e imporia minhas condições. Eles não perdiam por esperar.
Três da tarde — O telefone tocou e fui comunicado que minha renúncia fora aceita e que eu já não era mais o Presidente da República. Meu governo durara apenas sete meses. O tiro havia saído pela culatra. Abri uma garrafa e bebi pra esquecer.